Em 2031 a maioria dos lançamentos de jogo carrega declaração de uso de IA, e a declaração deixou de dizer qualquer coisa — virou o aviso de cookies do setor, presente em todo lugar e lido por ninguém. A produção de obra narrativa é abundante e barata; a receita continua concentrada em pouquíssimos títulos, como já era antes. A profissão de escritor de jogo não desapareceu: encolheu na base e se deslocou no topo — contrata-se menos gente para escrever falas e mais gente para especificar personagem, tabu e arco, e para editar saída de máquina. O degrau de entrada do ofício é o que de fato sumiu, e quem começou depois de 2027 teve muito mais dificuldade de entrar do que quem já estava dentro. As instituições se dividiram em dois circuitos que não conversam: o circuito de procedência, herdeiro do IFComp e da Commonwealth Foundation, que exige prova de processo humano e cresceu em prestígio…
O mesmo cenário, com uma diferença que muda tudo: a coautoria com IA ganhou uma moldura de ofício em vez de uma moldura de suspeita. O caminho que a Commonwealth Foundation apontou em 2026 ao recusar o detector e pedir rascunhos, carimbos de tempo e conversa sobre processo virou prática comum — procedência declarada em vez de detecção automática. Com isso, dizer "coescrevi com máquina, e aqui está como" deixou de ser confissão e passou a ser descrição de método, com critério público para julgar se foi bem feito. As ferramentas de autoria acompanharam: a superfície de trabalho é estrutura editável — grafo de mundo, restrição de personagem, mapa de estado — e não caixa de prompt, o que dá ao autor controle que ele possa defender e ao leitor um objeto que ele possa citar. O ensino se reorganizou em torno disso a tempo. E a tradução sobreposta foi absorvida em vez de combatida: publicar…
A declaração obrigatória virou rótulo de advertência antes de a tecnologia ficar boa, e a resposta racional do mercado foi parar de declarar. Texto gerado é indetectável de um jeito que arte não é — e a categoria "escrita e diálogo", que já era a menos declarada na Steam em 2026, virou a mais subdeclarada de todas. O resultado não é um mercado com IA nem um mercado sem IA: é um mercado onde ninguém sabe o que está lendo e todo mundo desconfia de tudo. A suspeita passou a recair sobre pessoas: escritores acusados de usar máquina por escreverem limpo demais, prêmios anulados por denúncia anônima, obras retiradas de circulação sem apuração — a versão ruim do caso da Nova Zelândia, em que dois livros saíram de uma premiação por uma capa, multiplicada por mil e sem investigação de um mês. As plataformas responderam com detectores automáticos, que erram nos dois sentidos e cujo erro recai…