Futuros · tema 8 · futurizacao-giordano · horizonte 2041 (15 anos)
Narrativa gerativa e coautoria
1. Resumo
O barato aqui não é escrever: é instanciar a obra inteira — elenco, cenas, arte, fala — a partir de uma intenção curta, e instanciá-la diferente para cada leitor. É isso que rompe, e não "a IA escreve melhor", que é melhoria sustentadora e foi recusada como raiz. O presente é mais modesto que o discurso e a assimetria é o dado mais útil do mapa: dos 53.597 lançamentos da Steam entre meados de 2023 e meados de 2026, a fatia com IA declarada subiu de 10,9% (2024) para 30,8% (2026), mas o que se declara é sobretudo imagem (cerca de 60% das declarações no Next Fest de junho de 2026) — escrita e diálogo são a menor fatia, e localização é a única categoria em que declarar IA anda junto com vender (18% entre os jogos bem-sucedidos contra 6% entre os malsucedidos). Ou seja: a geração já ganhou a tradução e ainda não ganhou a história. Há motivo técnico medido: o melhor modelo do ConStory-Bench comete 0,113 erro de consistência a cada 10 mil palavras em histórias de 8 a 10 mil — cerca de um erro por obra curta — e o NarrativeWorldBench mostra 21 modelos de fronteira empacados entre 0,78 e 0,81 de Plot-Beat F1, com queda de 0,20 quando o horizonte vai a 200 episódios. Duas retroações seguram o mapa e as duas já são mensuráveis: a recusa do público ao rótulo (boicote de assinatura na Naver Webtoon; 52% dos profissionais de jogos dizendo em 2026 que a IA generativa faz mal à indústria, contra 30% em 2025 — 63% entre quem faz design e narrativa) e o colapso da verificação de autoria, que o caso Jamir Nazir no Commonwealth Short Story Prize expôs em 2026: detector dizendo 100% de máquina, fundação operando por princípio de confiança, e ninguém capaz de decidir. Até 2041 o desenho provável não é a obra viva: é o híbrido — regra no volante, modelo na superfície — somado a um regime de declaração que vale como fato porque não há como verificá-lo.
2. O tema
O objeto. A história como coisa gerada. Não o personagem que age dentro do mundo (tema 7), não o vídeo como mídia (tema 12), não a regra que produz espaço (tema 14): o artefato narrativo — a novela visual, o quadrinho, o conto, o roteiro — produzido inteiro a partir de uma intenção curta, e a coautoria humano-máquina como modo normal de escrever.
Onde encosta em mídia e interação. Em três lugares ao mesmo tempo, e é a simultaneidade que faz o tema. Primeiro, na produção: o pipeline de ofícios (roteiro → arte → voz → montagem) deixa de ser a única forma de chegar à obra. Segundo, na execução: se a obra se instancia na hora, ela deixa de ser uma cópia distribuída e passa a ser um serviço rodando — com custo por sessão, política de privacidade e moderação. Terceiro, na recepção: crítica, prêmio, currículo escolar e conversa de mesa de bar pressupõem que duas pessoas leram a mesma coisa. Se não leram, a instituição inteira que se apoia nessa suposição fica sem chão.
Por que merece mapa de futuro, e não levantamento de estado da arte. Porque o estado da arte é enganoso nos dois sentidos. Para baixo: as ferramentas maduras (Ren'Py, Twine, Inform) fazem tudo o que sempre fizeram e não explicam nada do que está mudando. Para cima: as demos de "prompt vira jogo" prometem um objeto que os benchmarks mostram não existir ainda em extensão útil. O que interessa está no meio e é causal, não descritivo: quais consequências se seguem de o custo de contar cair perto de zero, dado que a coerência de longo alcance ainda não caiu de preço junto. Um levantamento responderia "o que existe". Uma roda responde "o que se quebra quando isso existir", e é essa a pergunta que quem projeta mídia precisa responder antes de 2041, porque as decisões que ela condiciona — formato de contrato, desenho de curadoria, arquitetura de produto, política pública de língua — se tomam com anos de antecedência.
Premissas assumidas nesta rodada (do bloco briefing:, §0 da skill, sem entrevista ao vivo): horizonte 2041; público de quem projeta mídia e interação; recorte global com nota sobre o Brasil; descartado de saída o que já é comum em produto de massa (a régua da disciplina); nenhuma disrupção suspeita dada — foi para descobrir; viés neutro; ideias óbvias a excluir são as que serviriam a qualquer tema; e o falseador declarado pelo autor: evidência de que a adoção já passou da maioria inicial (Rogers), ou de que a tecnologia só melhora o que existe sem romper nada. Esse falseador virou critério no §6. O briefing veio completo, então não há rebaixamento por ausência de entrevista; o que ele não cobriu está declarado na seção 12.2.
3. Onde isso está hoje
Âncora feita com acesso à web em 12/09/2026. Vinte e quatro fontes abertas e lidas; a lista está na seção 11, e as buscas que não deram em nada, na 12.4.
3.1 O que já existe e funciona
A geração do artefato inteiro, em escala pequena. mangobox.ai é um fazedor de novela visual no navegador que se descreve como "uma plataforma para criar e compartilhar histórias interativas": a pessoa escreve o prompt com personagens, ambiente e enredo, manda gerar, e conversa. Não publica número de usuários, de obras nem de preço — procurei e não achei; a página "about" é uma frase. Registre-se o que isso significa: a categoria existe como produto e ainda não existe como mercado mensurável.
A obra que se instancia diferente para cada jogador, em produto comercial. Whispers from the Star, da Anuttacon (estúdio do fundador da miHoYo), saiu em 14/08/2025, custa R$ 32,99 na Steam e tinha 1.659 resenhas com 80% de positivas na leitura de 12/09/2026. A página declara "conversas e performances totalmente dubladas, movidas a IA, criadas em colaboração com um ator" e avisa que, "dada a natureza aberta da interação", o diálogo "pode envolver linguagem forte, temas sensíveis ou cenários emocionalmente carregados, dependendo de como o jogador interage com o sistema". Duas informações inteiras estão nesse aviso: a obra não pode ser classificada por amostra, e o autor sabe disso. O jogo limita a sessão a 40–60 minutos por dia — um limite que não é estético.
A camada de tradução sobreposta. LunaTranslator (GPLv3) extrai o texto do jogo por hook de memória — "compatível com quase todas as novelas visuais, populares e de nicho" —, por OCR embutido, ou por hook de emuladores de NS/PSP/PSV/PS2, e traduz por "quase todos os motores de tradução, incluindo tradução por modelo de linguagem grande e tradução offline". Em alguns jogos, embute a tradução de volta na tela. É software pequeno em tamanho e enorme em consequência: obra em japonês lida em português sem que ninguém tenha traduzido, sem licença e sem distribuidor.
A geração ganhando a localização antes da história. No estudo de Sulka Haro sobre 53.597 lançamentos da Steam de meados de 2023 a meados de 2026: jogos com IA declarada foram 10,9% dos lançamentos em 2024, 19,9% em 2025 e 30,8% em 2026; os lançamentos com a marca cresceram "de 13 por mês para cerca de 530" e respondem por "60 a 90% de todo o crescimento na contagem mensal de lançamentos da Steam". Mas na receita a curva é outra: de 10 a 27% das vendas estimadas, contra 3 a 6% em 2024. E o detalhe que mais importa para este tema está na quebra por tipo: entre os jogos malsucedidos, a IA declarada é visual em 72%, voz em 8% e localização em 6%; entre os bem-sucedidos, voz sobe para 24% e localização para 18%. Quem vende usa a máquina para atravessar a língua, não para escrever a história.
O regime de declaração, já instalado e já divergente entre si. A Valve reescreveu as regras em 16/01/2026: ferramenta de fluxo de trabalho (assistente de código) não precisa ser declarada; "IA para gerar conteúdo para o jogo" e "conteúdo de IA gerado durante o jogo" precisam — a segunda caixa é o reconhecimento formal de que a obra gerada em execução é uma classe de produto. O itch.io tem o campo "Generative AI Disclosure" com quatro subcategorias (Graphics, Sound, Text & Dialog, Code), obrigatório para quem vende assets e apenas encorajado para jogos, com perda de indexação como sanção (post de 20/11/2024). A IFComp 2026 proíbe: "todo o conteúdo voltado ao jogador precisa ser inteiramente criado por humanos, incluindo arte de capa, prosa e todos os assets do jogo", permitindo IA apenas para "assistência ao desenvolvimento, como edição, depuração, suporte de acessibilidade, pesquisa, assistência limitada de tradução ou programação". O Artigo 50 do AI Act europeu está em vigor desde 02/08/2026, exigindo que a saída de sistema generativo seja "marcada em formato legível por máquina e detectável como gerada por IA", com prazo até 02/12/2026 para sistemas já implantados — e com uma isenção que vai importar muito neste mapa: quando o conteúdo "faz parte de uma obra ou programa evidentemente artístico, criativo, satírico, ficcional ou análogo", a obrigação de divulgação é reduzida a informar de modo "que não atrapalhe a exibição ou a fruição da obra". Na Coreia, o AI Basic Act obriga a rotular, admite marca d'água não visível e legível por máquina para webtoon e animação, e abriu um ano de carência com orientação em vez de multa.
O selo inverso, como produto pago. O Authors Guild abriu ao público em 02/03/2026 a certificação "Human Authored": US$ 10 por título para não sócios, gratuito para sócios, com verificação de identidade por terceiro, limite de 10 títulos por ano e por autor, e um critério explícito — o texto tem de ser humano salvo uso de minimis (corretor ortográfico), sendo permitido usar IA para sumário, índice, pesquisa, brainstorming e esboço de estrutura. O Prêmio Jabuti, na 68ª edição (inscrições de 31/03 a 19/05/2026), não aceita obras que usaram IA "em tarefas autorais", com exceção de quando a IA é o objeto de análise, estudo ou crítica.
A base instalada que a geração vai absorver ou contornar. Ren'Py está na versão 8.5.3 ("We Can Go to the Moon", 15/05/2026) e diz ter sido usado em "mais de 8.000 novelas visuais, jogos e outras obras". Nenhuma menção a IA na página do projeto. Twine, Inform 7, YarnSpinner e o resto da linhagem seguem exatamente onde estavam — o que é, por si, um dado: a ferramenta madura não está se transformando; está sendo contornada por fora.
3.2 O que existe e ainda não funciona
A consistência em extensão de obra. O ConStory-Bench (leaderboard atualizado em 05/03/2026, arXiv 2603.05890) mede geração de histórias de 8 a 10 mil palavras com uma taxonomia de cinco categorias e 19 subtipos de erro. O melhor colocado, GPT-5-Reasoning, fica em 0,113 erro de consistência por 10 mil palavras — aproximadamente um erro por obra curta —, e os erros se concentram em "Consistência factual e de detalhe" e "Linha do tempo e lógica de enredo": rastrear entidade, manter fato e raciocinar sobre tempo. Não é problema de estilo; é de contabilidade.
A consistência quando o mundo muda embaixo da história. O WSE-bench (arXiv 2608.15654, 16/08/2026, Chen et al.) mede cobertura de geração, consistência e riqueza em simulações de mundo aberto e encontra algo que desmonta a solução óbvia: consistência e riqueza não formam um trade-off suave (a fronteira de Pareto é não-côncava), escala de modelo melhora a geração sustentada mas "não melhora uniformemente a coerência", e acrescentar restrição estrutural enriquece a narrativa encurtando-a. O NarrativeWorldBench, de nove métricas, mostra 21 modelos de fronteira empacados entre 0,78 e 0,81 de Plot-Beat F1, com queda de 0,20 quando o horizonte vai a 200 episódios.
A variedade, que piora com o alinhamento. O paper "Narrative Flattening" (arXiv 2605.27878, 27/05/2026, revisto em 07/09/2026; Li, Zhu, Wu, Bao e Evans) acompanha quatro checkpoints do OLMo 32B — Base, SFT, DPO e RLVR — contra três fontes pareadas (StoryStar, TMAS e ficção do The New Yorker) e mede três dimensões: movimento temático, prevalência afetiva e diversidade linguística. O pós-treino comprime as três: "as transições temáticas ficam mais uniformes, as emoções de alta intensidade cedem à neutralidade, e a diversidade estilística entre histórias encolhe". A maior perda é justamente contra a ficção literária profissional, e os modelos pós-treinados convergem entre domínios — a saída fica indiferente ao material de origem. É o contrário do que a promessa de "cada leitor, uma história" pede.
A autoria como espaço a explorar, não como texto a produzir. O Elsewise (arXiv 2601.15295, 10/09/2026; Wang, Chung, Roemmele, Sun, Wang, Almeda, Halperin, Lu e Kreminski) atacou o problema por outro lado: visualizar o espaço de possibilidades para que o autor entenda o que a obra ramificada pode virar. Que o problema de ferramenta em 2026 seja "o autor não consegue ver o que o sistema vai fazer" diz onde o gargalo está — e não é na geração de texto.
A economia do jogo generativo. A survey "AI-Native Games: A Survey and Roadmap" (arXiv 2607.00527v2, 03/07/2026; Xu, Meng, Xu, Verbrugge, Lucas e Zhao) analisou 53 jogos e protótipos públicos de um universo candidato de 98, com o critério de que o sistema é nativo de IA se, retirando a IA, "a forma central de jogo colapsaria ou ficaria fundamentalmente diferente". Aventura narrativa é 45,3% (n=24) do conjunto; narrativa generativa / mestre de jogo é 26,4% das mecânicas. E a lista de desafios abertos é a agenda deste mapa: geração controlável limitada por regra, instabilidade de memória, inovação de mecânica além de gerar conteúdo, limitação de modalidade (domínio do texto), latência e economia de inferência, dependência de modelo comprometendo reprodutibilidade, e moderação em tempo de execução.
A detecção de autoria. Não funciona e o campo sabe. Em 2026, "The Serpent in the Grove", de Jamir Nazir, venceu o Commonwealth Short Story Prize na região do Caribe e saiu na Granta; capturas do detector Pangram alegando 100% de texto gerado circularam, a diretora-geral da Commonwealth Foundation, Razmi Farook, defendeu o processo dizendo que usar checadores de IA em submissão não publicada "levantaria preocupações significativas quanto a consentimento e propriedade artística", e que a fundação opera por "princípio de confiança"; a editora Sigrid Rausing chegou a consultar o Claude, que respondeu que o conto "quase certamente não foi produzido sem auxílio humano" — uma frase que não decide nada. Nazir não respondeu ao New York Times nem ao Guardian. Do outro lado da mesma dificuldade, Neil Clarke, da Clarkesworld, escreveu em agosto de 2025 que o padrão mudou do texto de robô fácil de pegar para a submissão híbrida, que ele monitora por padrão e revisa à mão, e que "a tecnologia nunca deve ter a última palavra, e não terá na Clarkesworld".
3.3 Quem constrói
| Ator | O que faz | Onde entra neste mapa |
|---|---|---|
| Anuttacon (fundador da miHoYo) | Whispers from the Star: diálogo gerado em tempo real, ator humano na performance | único caso comercial com número público de obra que se instancia por jogador |
| MangoBox | prompt → novela visual jogável no navegador | a geração do artefato inteiro como produto de consumidor |
| HIllya51 / comunidade LunaTranslator | hook + OCR + LLM: tradução sobreposta, GPLv3 | a camada que atravessa a obra sem passar pelo autor |
| Valve, itch.io | campo de declaração, sanção por indexação | quem define, na prática, o que "usar IA" significa |
| Comissão Europeia (AI Office), governo coreano | Art. 50 e AI Basic Act: marcação legível por máquina | quem transforma declaração em obrigação, com isenção para obra artística |
| Authors Guild, CBL/Jabuti, IFComp | o selo inverso e a proibição | quem organiza o mercado do "humano" |
| Academia (arXiv cs.CL/HCI, ACM) | ConStory-Bench, WSE-bench, Elsewise, Narrative Flattening | quem mede o teto e o custo escondido |
| Ren'Py, Twine, Inform, YarnSpinner | a base instalada de ficção interativa | o maduro que está sendo contornado, não substituído |
3.4 Os números da adoção hoje
- 30,8% dos lançamentos da Steam em 2026 declaram IA (10,9% em 2024; 19,9% em 2025), sobre 53.597 lançamentos analisados — mas só 10 a 27% das vendas estimadas.
- No Next Fest de junho de 2026, 26,5% das demos do conjunto rastreado declararam IA (~20% no evento inteiro, 4.382 demos no pool), e cerca de 60% das declarações são de arte visual; escrita e diálogo estão entre as fatias menores.
- 18% dos jogos bem-sucedidos declaram IA em localização, contra 6% dos malsucedidos.
- 52% dos mais de 2.300 profissionais ouvidos pelo State of the Game Industry da GDC 2026 dizem que a IA generativa tem impacto negativo na indústria — contra 30% em 2025 e 18% em 2024; 63% entre quem trabalha com design e narrativa; só 7% veem impacto positivo.
- 18,3% dos 800 quadrinistas de webtoon ouvidos pela Korea Creative Content Agency já usaram IA generativa; 36,1% pretendem usar; 63,8% das empresas de webtoon pretendem adotar; 41,3% apontam questão jurídica/autoral como o maior peso e 31,3% temem perda de originalidade.
- 1.659 resenhas (80% positivas) em Whispers from the Star, o caso comercial de referência.
- 8.000+ obras feitas em Ren'Py — a escala do maduro, para comparação.
- 0,113 erro de consistência por 10 mil palavras no melhor modelo do ConStory-Bench.
- 24 fontes abertas nesta rodada.
- Sem número encontrado para: usuários ou obras do MangoBox; instalações do LunaTranslator; receita do segmento de "jogo nativo de IA"; parcela de obras literárias publicadas com coautoria declarada.
4. As disrupções-raiz
Antes das quatro que entram, o que foi recusado — porque a recusa é metade do critério.
Candidato recusado como raiz: engine de novela visual e diálogo ramificado (Ren'Py 8.5.3, Twine, Inform 7, YarnSpinner). Adoção em maioria há mais de uma década; 8.000+ obras só em Ren'Py. Tratado como contexto na seção 3.
Candidato recusado como raiz: "o modelo escreve texto melhor". Não rompe prática, ofício nem modelo de negócio: faz o mesmo, mais barato. É melhoria sustentadora no sentido de Christensen, e entra neste mapa como efeito, não como causa.
Candidato recusado como raiz: geração de imagem e de voz como asset de produção. Além de ser objeto do tema 12, já é comum em produto de massa: ~60% das declarações de IA na Steam são visuais, e a régua da disciplina descarta o que dá para fazer com o que já é corrente.
Candidato recusado como raiz: tradução automática neural. Madura desde ~2017 e adotada na indústria de localização como pós-edição. O que rompe não é traduzir por máquina: é a tradução sobreposta por terceiro, em tempo de execução, sem passar pelo autor — que é a raiz R3.
Candidato recusado como raiz: copiloto de escrita. O uso já é tão corrente que o mercado vende o selo do contrário (Human Authored, "milhares de livros" certificados desde 2025). Uso corrente não é ruptura por vir; é o presente.
R1 — A obra inteira instanciada a partir de uma intenção curta
O que rompe. A unidade de produção. A obra narrativa audiovisual sempre foi montada por um pipeline de ofícios sequenciados — roteiro, arte, voz, programação, montagem — e é esse sequenciamento que sustenta o orçamento como instrumento editorial, o portfólio como prova de competência, o documento de design como contrato interno e a fronteira entre protótipo e obra. Quando a intenção curta instancia o artefato inteiro, o custo marginal deixa de filtrar o que se produz, e o filtro migra da produção para a atenção.
Por que agora, e não há cinco anos. Porque o ciclo texto → imagem → som → vídeo fechou num pipeline só e o custo de inferência caiu o bastante para a geração multimodal caber num produto de navegador. Em 2021 era possível gerar texto de história (AI Dungeon, NovelAI); não era possível gerar, do mesmo prompt, o elenco, a arte de cena e a fala, com continuidade entre eles.
Onde está na difusão. Produto de nicho, entrando em adoção precoce. MangoBox roda e é consumível; 30,8% dos lançamentos da Steam declaram IA, mas texto e diálogo são a menor parcela das declarações e a receita fica em 10–27%.
O que ainda falta acontecer. (a) Consistência em extensão de obra — o teto medido é ~1 erro por obra curta e cai com o horizonte; (b) controle autoral sobre o que foi gerado, que é exatamente o problema que o Elsewise ataca em 2026; (c) um caminho de distribuição que não seja engolido pelo próprio volume (60–90% do crescimento de lançamentos da Steam já é isto); (d) uma resposta de mercado ao rótulo, hoje negativa.
Quem bloqueia, e com que efeito. As lojas, que já exercem o poder de definir o que conta como uso (a reescrita da Valve em 16/01/2026 isentou ferramenta de fluxo e manteve conteúdo consumido pelo jogador); e o próprio ofício, com 63% de quem faz design e narrativa dizendo que a tecnologia faz mal — número que vira custo de contratação, de imprensa e de comunidade.
R2 — A obra que se instancia diferente para cada leitor
O que rompe. A identidade numérica da obra. Se cada execução produz um objeto distinto, deixa de existir "o livro" sobre o qual duas pessoas conversam, "a cena" que a crítica cita, "o trecho" que a perícia compara numa disputa de plágio, e "a amostra" pela qual se classifica indicativamente. Rompe também a distribuição: a obra deixa de ser cópia entregue e vira serviço rodando, com custo por sessão, política de privacidade e moderação em execução.
Por que agora. Porque a inferência ficou barata o bastante para rodar durante o jogo — e porque a instituição reconheceu a classe: a Valve criou em 16/01/2026 a declaração específica de "conteúdo de IA gerado durante o jogo", separada do conteúdo gerado na produção. Quando a loja cria um campo, o objeto existe comercialmente.
Onde está na difusão. Produto de nicho. Um caso comercial com número público (Whispers from the Star: 1.659 resenhas) e 53 sistemas nativos de IA catalogados na survey de 2026, dos quais 26,4% fazem narrativa generativa ou mestre de jogo.
O que ainda falta acontecer. (a) Memória estável — a survey nomeia instabilidade de memória como desafio central; (b) economia por sessão que feche (o limite de 40–60 minutos diários do Whispers é a confissão); (c) um regime de classificação indicativa aplicável ao que ainda não existe quando o produto é avaliado; (d) a demonstração de que liberdade conversacional produz liberdade narrativa — que os benchmarks de 2026 não sustentam.
Quem bloqueia, e com que efeito. O custo de inferência e a equipe de moderação, que empurram o desenho para o híbrido; e o regulador de conteúdo, porque nenhum sistema de classificação por amostra funciona sobre obra que só existe depois que o jogador fala — o aviso da Anuttacon na loja é a admissão pública disso.
R3 — A camada de tradução e adaptação que roda por cima da obra
O que rompe. O controle da obra sobre a língua em que é lida, e a localização como etapa contratada. Com hook de memória ou OCR mais LLM, a obra passa a ter leitores em línguas que ninguém licenciou, com qualidade que o autor não viu, não aprovou e não pode corrigir — e o distribuidor territorial perde o instrumento que sustentava a exclusividade. Rompe também o cálculo de mercado: "não vale a pena lançar em PT-BR" deixa de ser uma decisão que retém alguém.
Por que agora. Porque o custo de traduzir um turno de diálogo com qualidade aceitável caiu para perto de zero e o OCR em tempo real roda no dispositivo. A tradução automática existe há uma década; o que é novo é traduzir na tela, durante o consumo, por iniciativa do leitor.
Onde está na difusão. Assimétrica, e é esse o achado: produto de nicho do lado do leitor (LunaTranslator é comunidade, não plataforma) e adoção precoce indo para maioria do lado da indústria — localização é a única categoria em que declarar IA correlaciona com vender (18% contra 6%).
O que ainda falta acontecer. (a) Voz sincronizada em tempo real, que esbarra em contrato e não em técnica; (b) resolução jurídica sobre sobreposição como obra derivada não autorizada; (c) qualidade em registro, gíria e referência cultural — o ponto em que a máquina ainda perde por margem larga.
Quem bloqueia, e com que efeito. Os detentores de direito e distribuidores regionais, para quem a língua é a cerca do território; e, no Brasil, as associações de dublagem — o Movimento Dublagem Viva, o Clube da Voz e a Interartis foram à Câmara pedir a aprovação do PL 2338/23 com remuneração por direito autoral quando a obra alimenta IA, e do PL 1376/22, que exige dublagem e legendagem por empresas e profissionais sediados no Brasil. Se aprovado, o efeito é direto: a sobreposição de texto continua livre, e a voz fica presa.
R4 — A autoria como declaração auditável, e não como fato sobre o processo
O que rompe. A suposição de que "quem escreveu" é uma propriedade da obra, legível nela. Quando o texto não carrega a marca do processo e a detecção não funciona, a autoria deixa de ser constatável e passa a ser declarada — e tudo o que se apoiava nela (prêmio, seleção editorial, crédito, currículo, direito autoral, avaliação escolar) passa a se apoiar num regime de declaração com fraude, verificação, sanção e mercado de certificação. É uma ruptura institucional, não técnica, e é a mais irreversível das quatro.
Por que agora. Por dois motivos simultâneos que não existiam há cinco anos. Primeiro, o volume tornou a triagem impossível: a Clarkesworld recebeu 500 submissões geradas contra 700 legítimas em fevereiro de 2023, quando antes o spam não passava de 25 por mês, e o padrão migrou para o híbrido, que nenhum filtro separa. Segundo, o regulador entrou: o Artigo 50 do AI Act vale desde 02/08/2026, o AI Basic Act coreano obriga marca d'água legível por máquina, e plataformas (Valve, itch.io) e instituições (IFComp 2026, Jabuti 68ª, Authors Guild) já operam regimes próprios — incompatíveis entre si.
Onde está na difusão. Adoção precoce indo para maioria, e é a única das quatro raízes sobre a qual isso se pode dizer. A obrigação já existe em duas jurisdições e em duas lojas.
O que ainda falta acontecer. (a) Um detector que funcione — não existe, e o caso Nazir mostra que a instituição sabe que não existe; (b) jurisprudência sobre o que conta como "tarefa autoral" (o Jabuti usa a expressão sem defini-la operacionalmente); (c) um padrão de proveniência embutido no arquivo, que o Código de Conduta em elaboração no AI Office pode vir a fixar; (d) a decisão sobre a isenção de obra artística do Art. 50 — que é a brecha por onde a ficção inteira pode sair da marcação visível.
Quem bloqueia, e com que efeito. As próprias instituições certificadoras, cujo incentivo é manter vendável uma distinção que não conseguem verificar (US$ 10 por título, limite de 10 por ano, verificação de identidade — não de autoria); e os autores estabelecidos, para quem o regime de declaração é barreira de entrada útil contra a concorrência de volume.
5. A roda dos futuros
O bloco abaixo é o estado depois da bateria da seção 7 — dois efeitos foram removidos e seis rebaixados ali, e o registro antes→depois está na 7.8. A prosa que segue o bloco carrega o que o YAML não cabe: os mecanismos, as classes de referência de cada prazo, os cruzamentos, quem perde e a cobertura STEEP.
roda:
- disrupcao: A obra inteira instanciada a partir de uma intenção curta
efeitos:
- id: e1
ordem: 1
efeito: O protótipo jogável deixa de ser etapa e vira a unidade de pitch, substituindo o documento de design na apresentação de projeto
sinal: medio
prazo: 2029
confianca: media
efeitos:
- id: e1.1
ordem: 2
efeito: O documento de design perde a função de contrato interno e vira anotação sobre um build que já existe
sinal: medio
prazo: 2031
confianca: media
efeitos:
- id: e1.1.1
ordem: 3
efeito: O ensino de escrita para jogos perde o artefato que o tornava ensinável em separado e é reabsorvido pela direção de projeto
sinal: fraco
prazo: 2042
confianca: baixa
- id: e2
ordem: 1
efeito: O catálogo de obra narrativa cresce mais rápido que a atenção disponível e a descoberta substitui a produção como gargalo
sinal: forte
prazo: 2028
confianca: alta
efeitos:
- id: e2.1
ordem: 2
efeito: A curadoria migra de quem seleciona para quem garante, e selo, lista curada e clube fechado passam a valer mais que a vitrine da loja
sinal: medio
prazo: 2031
confianca: media
efeitos:
- id: e2.1.1
ordem: 3
efeito: O selo de curadoria vira ativo negociável e aparece a captura por pagamento, repetindo o percurso da lista de mais vendidos
sinal: fraco
prazo: 2036
confianca: baixa
- id: e2.2
ordem: 2
efeito: Revistas e concursos de ficção fecham a submissão aberta e passam a operar por indicação, taxa ou janela curta
sinal: medio
prazo: 2030
confianca: media
efeitos:
- id: e2.2.1
ordem: 3
efeito: O acesso do autor estreante ao circuito passa a depender de rede social prévia, e a barreira de entrada sobe justamente onde o custo de produzir caiu
sinal: fraco
prazo: 2035
confianca: baixa
- id: e2.3
ordem: 2
efeito: O preço de obra narrativa curta cai abaixo do custo de atenção do comprador e a venda unitária cede lugar a assinatura e pacote
sinal: medio
prazo: 2032
confianca: media
- id: e3
ordem: 1
efeito: Escritores de jogo deixam de ser contratados por volume de texto e passam a ser contratados por definição de restrição, ou seja, pelo que o sistema não pode dizer
sinal: medio
prazo: 2031
confianca: media
efeitos:
- id: e3.1
ordem: 2
efeito: O caderno de invariantes narrativos vira entregável contratado, separado do texto e versionado à parte
sinal: fraco
prazo: 2033
confianca: baixa
- id: e3.2
ordem: 2
efeito: O estúdio que não mantém invariantes escritos descobre a incoerência em produção, e o teste de narrativa vira custo recorrente em vez de etapa
sinal: medio
prazo: 2032
confianca: media
efeitos:
- id: e3.2.1
ordem: 3
efeito: Surge auditoria narrativa terceirizada como serviço, análoga ao teste de compatibilidade de hardware
sinal: fraco
prazo: 2036
confianca: baixa
- id: e4
ordem: 1
efeito: A recusa do público à obra declaradamente gerada vira custo de marketing mensurável e empurra estúdios a esconder o uso em vez de declará-lo
sinal: forte
prazo: 2028
confianca: alta
efeitos:
- id: e4.1
ordem: 2
efeito: A não-declaração passa a ser risco regulatório, instalando conflito corrente entre o incentivo de mercado e a obrigação legal
sinal: medio
prazo: 2030
confianca: media
efeitos:
- id: e4.1.1
ordem: 3
efeito: A prova de autoria passa a ser produzida durante a escrita, por registro de processo assinado, em vez de atestada depois
sinal: fraco
prazo: 2034
confianca: baixa
- id: e4.2
ordem: 2
efeito: Formam-se dois mercados com preços distintos para a mesma história, a versão certificada humana e a versão gerada
sinal: medio
prazo: 2033
confianca: media
- id: e5
ordem: 1
efeito: A obra gerada passa a nascer em várias línguas ao mesmo tempo, sem original, e a língua de origem deixa de ser um fato sobre o texto
sinal: fraco
prazo: 2035
confianca: media
efeitos:
- id: e5.1
ordem: 2
efeito: A expressão língua de origem deixa de descrever a obra e passa a descrever apenas o prompt e a pessoa que o escreveu
sinal: fraco
prazo: 2037
confianca: baixa
- id: e5.2
ordem: 2
efeito: Políticas culturais que financiam por língua ficam sem critério aplicável e migram para critério territorial de pessoa
sinal: fraco
prazo: 2038
confianca: baixa
efeitos:
- id: e5.2.1
ordem: 3
efeito: Editais e prêmios brasileiros consolidam a exigência de vínculo territorial do autor e da edição, no modelo do ISBN e da ficha catalográfica emitidos no Brasil
sinal: fraco
prazo: 2040
confianca: baixa
- disrupcao: A obra que se instancia diferente para cada leitor
efeitos:
- id: e6
ordem: 1
efeito: A obra narrativa passa a ter custo marginal por sessão e o desenho econômico migra da venda unitária para o limite de uso
sinal: forte
prazo: 2028
confianca: alta
efeitos:
- id: e6.1
ordem: 2
efeito: O limite diário de sessão entra no desenho narrativo como restrição estética, com capítulos dimensionados por orçamento de inferência
sinal: medio
prazo: 2030
confianca: media
efeitos:
- id: e6.1.1
ordem: 3
efeito: A obra longa gerada vira privilégio de assinatura cara e a obra curta gerada vira o formato popular
sinal: fraco
prazo: 2034
confianca: baixa
- id: e6.2
ordem: 2
efeito: Estúdios convergem para arquitetura híbrida, com máquina de estados no controle e modelo na superfície, e a geração total fica restrita a demonstração
sinal: forte
prazo: 2029
confianca: alta
- id: e6.3
ordem: 2
efeito: Assinatura e venda unitária passam a produzir desenhos narrativos opostos, um otimizando permanência e o outro otimizando encerramento
sinal: medio
prazo: 2031
confianca: media
- id: e7
ordem: 1
efeito: A crítica perde o objeto comum e passa a descrever o sistema em vez da obra, resenhando regras em vez de enredo
sinal: fraco
prazo: 2036
confianca: baixa
efeitos:
- id: e7.1
ordem: 2
efeito: Resenhas passam a vir com trilha de execução anexada, com semente, versão do modelo e registro de escolhas, como condição para serem discutíveis
sinal: fraco
prazo: 2038
confianca: baixa
efeitos:
- id: e7.1.1
ordem: 3
efeito: Semente e versão de modelo viram metadado obrigatório de preservação, e arquivar uma obra passa a exigir arquivar o modelo
sinal: fraco
prazo: 2040
confianca: baixa
- id: e7.2
ordem: 2
efeito: Comunidades de leitores fixam uma execução canônica por convenção social para poder conversar, recriando a cópia sem que ninguém a distribua
sinal: fraco
prazo: 2035
confianca: baixa
- id: e8
ordem: 1
efeito: A classificação indicativa deixa de poder ser feita por amostra da obra e passa a ser feita por auditoria do sistema mais moderação em tempo de execução
sinal: medio
prazo: 2031
confianca: media
efeitos:
- id: e8.1
ordem: 2
efeito: A responsabilidade pelo conteúdo gerado em sessão migra do autor para o operador do serviço, como já ocorreu na moderação de plataforma
sinal: medio
prazo: 2033
confianca: media
efeitos:
- id: e8.1.1
ordem: 3
efeito: Obra narrativa generativa passa a ser tratada como serviço regulado e o autor individual sem operador é empurrado para fora do mercado
sinal: fraco
prazo: 2037
confianca: baixa
- id: e8.2
ordem: 2
efeito: Sem regime brasileiro para conteúdo gerado em execução, a classificação indicativa nacional passa a ser aplicada ao sistema e não à obra
sinal: fraco
prazo: 2034
confianca: baixa
- id: e9
ordem: 1
efeito: A liberdade conversacional se revela não equivalente à liberdade narrativa e o público desconta a promessa de história única
sinal: forte
prazo: 2029
confianca: alta
efeitos:
- id: e9.1
ordem: 2
efeito: O argumento de venda migra de infinito para coerente e a métrica pública passa a ser consistência em vez de variedade
sinal: medio
prazo: 2032
confianca: media
efeitos:
- id: e9.1.1
ordem: 3
efeito: Benchmarks de consistência narrativa entram no material de marketing, como a taxa de quadros entrou no de gráficos
sinal: fraco
prazo: 2035
confianca: baixa
- id: e9.2
ordem: 2
efeito: Obras com ramificação escrita à mão voltam a ser vendidas como diferencial e o custo humano vira atributo declarado de produto
sinal: medio
prazo: 2033
confianca: media
- id: e10
ordem: 1
efeito: O personagem que lembra do leitor transforma texto de entretenimento em dado pessoal e a obra passa a ter política de privacidade
sinal: medio
prazo: 2030
confianca: media
efeitos:
- id: e10.1
ordem: 2
efeito: Obras narrativas passam a ter direito ao esquecimento aplicável ao enredo, de modo que apagar o dado apaga a história vivida
sinal: fraco
prazo: 2033
confianca: baixa
- id: e10.2
ordem: 2
efeito: A conversa do leitor com a obra vira corpus de treino disputado e aparece cláusula de licença sobre o que o leitor disse
sinal: medio
prazo: 2032
confianca: media
efeitos:
- id: e10.2.1
ordem: 3
efeito: Surge um nicho de histórias que não aprendem, vendidas pela garantia de não reter nada do leitor
sinal: fraco
prazo: 2036
confianca: baixa
- disrupcao: A camada de tradução e adaptação sobreposta à obra em tempo de execução
efeitos:
- id: e11
ordem: 1
efeito: Obras passam a ser consumidas em línguas que ninguém licenciou e a decisão de não localizar deixa de reter leitor
sinal: forte
prazo: 2029
confianca: alta
efeitos:
- id: e11.1
ordem: 2
efeito: O contrato de distribuição territorial perde o instrumento que o sustentava e migra de exclusividade de língua para exclusividade de serviço, como voz, suporte e comunidade
sinal: medio
prazo: 2032
confianca: media
efeitos:
- id: e11.1.1
ordem: 3
efeito: Selos de tradução literária no Brasil passam a competir com sobreposição gratuita e se reposicionam em edição impressa, aparato crítico e curadoria
sinal: fraco
prazo: 2036
confianca: baixa
- id: e11.2
ordem: 2
efeito: O autor perde o controle sobre a primeira impressão da obra em outra língua e o erro de tradução deixa de ter responsável identificável
sinal: medio
prazo: 2030
confianca: media
- id: e11.3
ordem: 2
efeito: Comunidades de fãs abandonam o patch de tradução e um ofício amador de trinta anos desaparece por obsolescência, não por proibição
sinal: medio
prazo: 2031
confianca: media
- id: e12
ordem: 1
efeito: A localização profissional se reorganiza em torno de revisão e adaptação cultural e o preço por palavra deixa de ser a unidade de cobrança
sinal: medio
prazo: 2030
confianca: media
efeitos:
- id: e12.1
ordem: 2
efeito: O posto de tradutor júnior de jogos desaparece e com ele o caminho de formação do tradutor sênior
sinal: medio
prazo: 2032
confianca: media
efeitos:
- id: e12.1.1
ordem: 3
efeito: Uma década depois a indústria descobre não ter quem revise e o custo da revisão sobe acima do que era o da tradução
sinal: fraco
prazo: 2043
confianca: baixa
- id: e12.2
ordem: 2
efeito: Estúdios brasileiros passam a lançar em dez línguas no dia um e a barreira de idioma deixa de explicar o alcance limitado
sinal: medio
prazo: 2030
confianca: media
efeitos:
- id: e12.2.1
ordem: 3
efeito: O diferencial competitivo do jogo brasileiro desloca-se de acesso a mercado para especificidade cultural, e traduzir a referência vira o problema caro
sinal: fraco
prazo: 2035
confianca: baixa
- id: e13
ordem: 1
efeito: A voz se torna o ponto onde a tradução automática trava, porque a voz tem dono com contrato e o texto não tem
sinal: forte
prazo: 2029
confianca: alta
efeitos:
- id: e13.1
ordem: 2
efeito: A obra passa a ter duas camadas jurídicas distintas, texto livremente sobreposto e voz licenciada, e o consumo traduzido fica legendado mesmo com síntese boa
sinal: medio
prazo: 2032
confianca: media
efeitos:
- id: e13.1.1
ordem: 3
efeito: A legenda sobreposta por terceiro vira a forma dominante de consumo transfronteiriço e a dublagem passa a produto premium regional
sinal: fraco
prazo: 2036
confianca: baixa
- id: e13.2
ordem: 2
efeito: Se o PL 2338 for aprovado com remuneração por uso em treino, o Brasil vira mercado onde a voz sintética custa mais que a legenda e estúdios globais deixam de dublar em português
sinal: medio
prazo: 2033
confianca: media
- id: e14
ordem: 1
efeito: A obra passa a ser escrita para ser traduzida por máquina, com recuo de sintaxe complexa, referência local e trocadilho
sinal: medio
prazo: 2032
confianca: baixa
efeitos:
- id: e14.2
ordem: 2
efeito: Regionalismo e oralidade brasileira ficam economicamente penalizados na exportação e a escrita para mercado externo se aplaina
sinal: medio
prazo: 2034
confianca: media
- disrupcao: A autoria como declaração auditável em vez de fato sobre o processo
efeitos:
- id: e15
ordem: 1
efeito: A declaração de uso de IA vira campo obrigatório em loja, concurso e editora e declarar errado passa a custar mais que não usar
sinal: forte
prazo: 2028
confianca: alta
efeitos:
- id: e15.1
ordem: 2
efeito: Instala-se a assimetria entre o que a loja pede, conteúdo consumido pelo jogador, e o que o regulador pede, marcação legível por máquina, e o mesmo produto carrega duas declarações incompatíveis
sinal: medio
prazo: 2030
confianca: media
efeitos:
- id: e15.1.1
ordem: 3
efeito: Consolida-se um padrão de proveniência embutido no arquivo e a declaração deixa de ser texto para virar metadado verificável
sinal: fraco
prazo: 2035
confianca: baixa
- id: e15.2
ordem: 2
efeito: A isenção de obra artística do Artigo 50 vira a porta pela qual a ficção escapa da marcação visível e ser arte passa a ser argumento jurídico de isenção
sinal: medio
prazo: 2031
confianca: media
efeitos:
- id: e15.2.1
ordem: 3
efeito: A fronteira entre ficção e informação vira objeto de litígio, porque é ela que decide qual obrigação se aplica
sinal: fraco
prazo: 2035
confianca: baixa
- id: e16
ordem: 1
efeito: O selo de autoria humana vira produto pago e provar que não usou máquina passa a custar dinheiro
sinal: forte
prazo: 2028
confianca: alta
efeitos:
- id: e16.1
ordem: 2
efeito: O selo é comprável e não verificável, e a primeira fraude pública de certificação humana destrói o valor de sinal do selo
sinal: medio
prazo: 2032
confianca: media
efeitos:
- id: e16.1.1
ordem: 3
efeito: A certificação migra de atestado do autor para evidência de processo e escrever passa a ser uma atividade registrada
sinal: fraco
prazo: 2036
confianca: baixa
- id: e16.2
ordem: 2
efeito: Autores de países sem instituição certificadora ficam fora do regime e passam a ser presumidos gerados por quem seleciona
sinal: medio
prazo: 2033
confianca: media
- id: e17
ordem: 1
efeito: A detecção falha publicamente e a suspeita vira a condição normal de leitura, com obra humana acusada e obra gerada passando
sinal: forte
prazo: 2028
confianca: alta
efeitos:
- id: e17.1
ordem: 2
efeito: Prêmios e revistas abandonam a detecção e migram para procedimento, com entrevista, defesa oral e escrita presenciada
sinal: medio
prazo: 2031
confianca: media
efeitos:
- id: e17.1.1
ordem: 3
efeito: A performance de autoria vira parte do valor da obra e o texto isolado perde poder de atestar quem o fez
sinal: fraco
prazo: 2037
confianca: baixa
- id: e17.2
ordem: 2
efeito: O ônus da prova se inverte para o autor sem nome feito e a acusação sem evidência vira instrumento de disputa de prêmio
sinal: medio
prazo: 2030
confianca: media
efeitos:
- id: e17.2.1
ordem: 3
efeito: O dano reputacional por falso positivo de detector aparece como categoria própria de litígio
sinal: fraco
prazo: 2034
confianca: baixa
- id: e18
ordem: 1
efeito: A coautoria com máquina deixa de ser vergonha declarável e vira gênero, com convenção própria de crédito
sinal: fraco
prazo: 2036
confianca: baixa
efeitos:
- id: e18.1
ordem: 2
efeito: O crédito se fragmenta em papéis, quem definiu a intenção, quem curou, quem revisou e qual modelo, e a ficha técnica da obra literária passa a parecer a de um filme
sinal: fraco
prazo: 2038
confianca: baixa
- id: e18.2
ordem: 2
efeito: Concursos criam categoria separada para obra assumidamente coautorada e a separação, não a proibição, vira a norma
sinal: medio
prazo: 2034
confianca: media
efeitos:
- id: e18.2.1
ordem: 3
efeito: A categoria separada ou se esvazia ou absorve a principal, e em qualquer dos dois casos a distinção deixa de ser feita
sinal: fraco
prazo: 2040
confianca: baixa
5.1 Os mecanismos, ramo a ramo
R1 · e1 — o build substitui o documento. Porque a obra instanciada a partir de uma intenção curta faz o custo de mostrar cair abaixo do custo de descrever. Quando gerar o jogável custa menos que escrever o documento que o descreve, ninguém escreve o documento primeiro. e1.1 segue porque o documento perde a função para a qual existia — alinhar pessoas antes de haver artefato — e vira anotação sobre algo que já roda. e1.1.1, o ensino, segue porque o roteiro era o artefato destacável que permitia ensinar escrita separada da produção; sem ele, a disciplina não tem objeto próprio e é reabsorvida pela direção. Este é o único efeito de 3ª ordem do ramo cujo prazo, 2042, passa do horizonte do mapa — currículo universitário muda em ciclos de 8 a 10 anos, e o gatilho (e1.1) só se firma por volta de 2031. Fica declarado: está fora da janela de 2041, mas a cadeia causal já está escrita.
Classe de referência para e1 (2029): a passagem do design document para o vertical slice como peça de pitch em jogos AAA levou cerca de cinco anos depois que motores acessíveis (Unity 2010, Unreal gratuito 2015) tornaram o slice barato. Aqui a barateza já existe e a peça já é demonstrável, então três anos é plausível; foi por isso que a confiança caiu de alta para média na bateria — o precedente mostra que a substituição é parcial, não total: o documento sobreviveu ao slice.
R1 · e2 — o gargalo muda de lugar. Porque o volume de obra publicável cresce com o custo de produzi-la, enquanto a atenção não cresce. É o efeito mais bem ancorado de todo o mapa e o único de 1ª ordem com sinal forte e confiança alta em que a evidência é numérica e direta: os lançamentos com IA declarada respondem por 60 a 90% de todo o crescimento mensal de lançamentos da Steam, saindo de 13 por mês para ~530, sem que a receita acompanhe (10–27% das vendas). e2.1 segue porque quando a vitrine deixa de filtrar, quem filtra vira infraestrutura; e e2.1.1, a captura do selo, segue porque todo filtro escasso com demanda alta desenvolve mercado secundário — a classe de referência é a lista de mais vendidos e o pacote de resenhas pagas, ambos capturados poucos anos depois de virarem critério. e2.2 já tem caso: a Clarkesworld fechou submissões em 20/02/2023 diante de 500 geradas contra 700 legítimas no mês e, embora tenha reaberto com processo adaptado, Neil Clarke descreve em 2025 um padrão híbrido que o filtro não separa. e2.2.1 é a consequência perversa, e é o efeito deste mapa que mais merece atenção de quem forma gente: porque o circuito responde ao volume fechando a porta, e a porta fechada só se abre por relação prévia — quem estreia sem rede social paga a conta de uma tecnologia que deveria tê-lo ajudado a entrar.
R1 · e3 — a contratação muda de unidade. Porque quando o sistema produz texto em volume, o valor do escritor migra do que ele escreve para o que ele impede o sistema de escrever. O mecanismo é exatamente o que o ConStory-Bench mede: erros de "consistência factual e de detalhe" e de "linha do tempo e lógica de enredo" são violações de invariantes que alguém teria de ter escrito. e3.1 e e3.2 derivam disso e não de e3 apenas "mais adiante": mudam o ator (do escritor para o estúdio e o QA) e o mecanismo (de contratação para descoberta de defeito em produção). e3.2.1 repete um percurso conhecido: o teste de compatibilidade virou serviço terceirizado quando a matriz de hardware ficou grande demais para o estúdio cobrir sozinho — a matriz de execuções narrativas é maior.
Classe de referência para e3 (2031): a migração de "programador que escreve tudo" para "programador que define contratos e revisa" levou cerca de uma década na engenharia de software com bibliotecas de alto nível; com pressão econômica maior, cinco anos.
R1 · e4 — a retroação do ramo: o rótulo custa dinheiro. Porque o público penaliza o rótulo mais do que penalizaria o resultado, o que torna a declaração honesta economicamente inferior à omissão. Há três evidências independentes: o boicote de assinatura contra a obra gerada publicada pela Naver Webtoon; os 52% de profissionais de jogos dizendo que a IA generativa faz mal (2.300+ respondentes, contra 30% em 2025 e 18% em 2024; 63% em design e narrativa); e o estudo do JCOM (março de 2026, n=433) que encontra um "efeito de cruzamento verdade-falsidade" — o mesmo rótulo de IA derruba a credibilidade da informação correta e eleva a da falsa. O rótulo, portanto, não informa: reposiciona. e4.1 segue porque o incentivo de mercado passa a apontar na direção contrária da obrigação legal, e é onde este ramo colide com R4. e4.1.1 é a saída técnica desse conflito: se ninguém consegue provar ausência depois, prova-se presença durante. e4.2 é a saída de mercado: dois preços para a mesma história.
R1 · e5 — a obra sem original. Porque, gerando-se o artefato inteiro a partir da intenção, a instanciação em cada língua é simultânea e nenhuma delas é derivada da outra. Este efeito foi empurrado de 2033 para 2035 na bateria: exige que a geração multilíngue seja boa o bastante em registro literário, e a classe de referência (tradução automática neural, 2016 → uso corrente em localização por volta de 2022-2024, ~7 anos) sugere que a qualidade literária multilíngue simultânea leva mais, não menos. e5.2 e e5.2.1 tocam política pública: o critério de língua é a base de quase todo fomento cultural, e o substituto disponível é o territorial — o regulamento do Jabuti já exige ISBN e ficha catalográfica emitidos no Brasil, que é exatamente esse deslocamento em miniatura.
R2 · e6 — o custo por sessão. Porque a obra que se instancia na hora consome inferência a cada leitura, transformando um custo fixo de produção em custo variável de consumo. O sinal é forte e observável: Whispers from the Star limita a sessão a 40–60 minutos por dia. Não é escolha estética. e6.1 segue porque a restrição orçamentária de uma obra sempre acaba virando forma — o folhetim tinha tamanho de coluna de jornal, o episódio de TV tinha tamanho de bloco comercial. e6.2 é o efeito de 2ª ordem com sinal forte e confiança alta, exceção deliberada à regra de que a 2ª ordem não tem alta: a survey de 53 sistemas nativos de IA nomeia "geração controlável limitada por regra" como o primeiro desafio da agenda, e o WSE-bench mostra por quê — acrescentar restrição estrutural melhora a narrativa e a encurta, o que é a definição operacional do híbrido. e6.3 é uma contradição interna deliberada (ver 5.4).
R2 · e7 — a crítica sem objeto. Porque a crítica é um discurso sobre um objeto que o leitor pode conferir, e a obra instanciada não é conferível. Foi o efeito mais rebaixado da bateria (prazo 2032→2036, confiança média→baixa) e a razão está na classe de referência: Bandersnatch (Netflix, 2018) prometeu narrativa adaptativa em escala de massa e não gerou categoria em sete anos; o formato voltou a ser experimento. Rebaixar aqui é reconhecer que a crítica só perde o objeto se a obra adaptativa virar volume relevante, e nada indica que vire antes de meados da década de 2030. e7.2 é o contramovimento social — comunidades fixam uma execução canônica — e vale mais que e7.1: a cópia volta por convenção, sem que ninguém a distribua.
R2 · e8 — classificar o que ainda não existe. Porque a classificação indicativa é feita por amostra da obra acabada, e a obra só acaba de existir depois que o jogador fala. O aviso da Anuttacon na página da Steam é a admissão pública. e8.1 segue porque quando o conteúdo é produzido em tempo de execução, quem o hospeda é quem pode contê-lo — é o mesmo raciocínio que deslocou responsabilidade para plataformas de mídia social. e8.1.1 é quem perde: o autor solo, empurrado para fora por não poder operar um serviço. e8.2 é a nota brasileira e é o efeito de confiança mais frágil deste ramo — não abri fonte sobre o regime brasileiro de classificação indicativa nesta rodada, e está declarado na seção 8.
R2 · e9 — a retroação do ramo: a promessa não se cumpre. Porque poder dizer qualquer coisa não é o mesmo que poder mudar o que acontece, e o público mede a segunda coisa. O mecanismo está medido: o WSE-bench mostra que escala melhora a geração sustentada mas não a coerência nem o desenvolvimento, com fronteira de Pareto não-côncava entre consistência e riqueza; o NarrativeWorldBench trava 21 modelos entre 0,78 e 0,81 de Plot-Beat F1; e o Narrative Flattening mostra que o pós-treino comprime justamente a variação que a promessa vende. Três medidas independentes apontando para o mesmo lugar é o que sustenta sinal forte e confiança alta. e9.1 e e9.2 são o ajuste de discurso comercial que se segue.
R2 · e10 — a obra como controlador de dados. Porque memória longitudinal de conversa é dado pessoal, e dado pessoal tem regime jurídico próprio, independente de o produto ser ficção. e10.1 é a consequência mais estranha e mais concreta: exercer o direito ao esquecimento apaga a história vivida — o direito do titular colide com a integridade da obra. e10.2.1, o nicho das "histórias que não aprendem", é o tipo de efeito que parece absurdo até se lembrar de que existe mercado para telefone sem câmera e para carro sem telemetria.
R3 · e11 — a obra atravessa a língua sem licença. Porque hook de memória mais LLM elimina a necessidade de qualquer intermediário entre o texto do jogo e o leitor em outra língua. Sinal forte e confiança alta: o LunaTranslator existe, é GPLv3, cobre "quase todas as novelas visuais" por hook e ainda alcança emuladores de quatro consoles. e11.1 segue porque a exclusividade territorial em mídia sempre foi operada pela língua, e o que resta de exclusivo quando a língua vaza é o serviço. e11.2 nomeia quem perde de um jeito que costuma passar batido: não é só o tradutor — é o autor, que perde a primeira impressão da própria obra em mercados que nunca visitou. e11.3 é o desaparecimento silencioso de um ofício amador de três décadas, e é o efeito deste mapa que mais claramente mostra que "quem perde" não é sempre quem tem contrato.
R3 · e12 — a localização muda de unidade. Porque quando a primeira versão sai da máquina, o trabalho humano se desloca para o que a máquina erra, e o que a máquina erra não se mede em palavras. O dado que sustenta: localização por IA aparece em 18% dos jogos bem-sucedidos da Steam contra 6% dos malsucedidos — quem vende já faz assim. e12.1 e e12.1.1 formam o ciclo mais longo do mapa e o único com prazo em 2043, além do horizonte (declarado): elimina-se o degrau de entrada em 2032, e a falta de sênior aparece cerca de dez anos depois, que é o tempo que leva para formar um. A classe de referência é a revisão tipográfica, que sumiu como posto de entrada nos anos 1990 e cuja falta as editoras passaram a sentir por volta de 2005. e12.2 é a nota brasileira mais concreta: 78 estúdios brasileiros foram à gamescom 2026, o setor fez mais de US$ 138 milhões em negócios globais e 55% da receita dos estúdios nacionais vem do mercado externo. Para quem já exporta a maior parte, cair o custo de língua muda o cálculo de lançamento no dia um. e12.2.1 é a contrapartida: o que sobra de diferencial é justamente o que é mais caro de traduzir.
R3 · e13 — a retroação do ramo: a voz trava. Porque a voz tem dono com contrato coletivo, e o texto não tem. O Acordo de Mídia Interativa 2025 da SAG-AFTRA, ratificado em julho de 2025 por 95,04% após greve de 11 meses, exige consentimento "separado, escrito, claro e conspícuo e razoavelmente específico" antes da criação e do uso de réplica digital, descrição razoavelmente específica do uso, e negociação sempre que qualquer voz sintética for criada por IA generativa — não apenas voz de personagem humano. No Brasil, o pedido do setor na Câmara em 29/08/2024 foi pela aprovação do PL 2338/23 (remuneração por direito autoral quando a obra alimenta IA) e do PL 1376/22 (dublagem e legendagem por empresas e profissionais sediados no país), além do reconhecimento da dublagem como patrimônio imaterial. e13.1 é a consequência estrutural: a obra passa a ter duas camadas jurídicas e o consumo transfronteiriço fica legendado mesmo quando a síntese já é boa. e13.2 é o efeito brasileiro, e é desconfortável: a proteção pode produzir menos dublagem em português, não mais.
R3 · e14 — escrever para a máquina traduzir. Porque, se a maior parte dos leitores vai ler a saída da máquina, o autor otimiza para ela. Foi rebaixado de confiança média para baixa na bateria: linguagem controlada para tradução já existe há décadas em documentação técnica e nunca contaminou a ficção, que é onde o intraduzível é valor. e14.2 sobrevive porque tem ator e mecanismo específicos: o autor brasileiro que escreve mirando exportação, com oralidade e regionalismo penalizados na conversão.
R4 · e15 — a declaração vira obrigação. Porque cada plataforma e cada jurisdição resolve o problema da confiança criando um campo, e os campos não coincidem. O sinal é forte e múltiplo: Valve (16/01/2026), itch.io (20/11/2024), IFComp 2026, Jabuti 68ª, Art. 50 desde 02/08/2026, AI Basic Act coreano com carência de um ano. e15.1 é o atrito concreto: a Valve pergunta por conteúdo consumido pelo jogador e isenta ferramenta de fluxo; o Art. 50 exige marcação legível por máquina na saída do sistema. São perguntas diferentes sobre o mesmo produto, e a resposta honesta a uma pode ser omissão na outra. e15.2 é, para mim, o efeito mais subestimado deste mapa inteiro: o Art. 50 reduz a obrigação quando o conteúdo "faz parte de uma obra evidentemente artística, criativa, satírica, ficcional ou análoga", exigindo apenas informar de modo que não atrapalhe a fruição. A ficção inteira cabe nessa frase. e15.2.1 é a consequência: a fronteira ficção/informação passa a decidir obrigação jurídica, e por isso vira objeto de litígio.
R4 · e16 — o selo do avesso. Porque, quando não se consegue detectar a máquina, vende-se a certificação do humano. Está montado: Authors Guild, US$ 10 por título, público desde 02/03/2026, com verificação de identidade por terceiro — e é isso que faz e16.1 derivar: o que se verifica é quem assinou, não quem escreveu; um atestado não verificável só sustenta valor de sinal até a primeira fraude pública. A classe de referência é o selo orgânico e o "cruelty-free": ambos passaram por um escândalo de certificação nos primeiros cinco a dez anos e migraram para auditoria de processo. e16.2 é quem perde: autor de país sem instituição certificadora — o que inclui o Brasil, onde o Jabuti proíbe mas não certifica — presumido gerado por quem seleciona lá fora.
R4 · e17 — a retroação do ramo: a suspeita vira norma. Porque o detector erra nos dois sentidos e a instituição não pode usá-lo, o que deixa a acusação sem árbitro. O caso Jamir Nazir não é hipótese: Pangram alegando 100%, a Commonwealth Foundation dizendo que checar submissão não publicada esbarra em consentimento e propriedade artística e operando por "princípio de confiança", uma editora consultando um modelo para decidir sobre outro, o autor em silêncio, e nenhuma conclusão possível. Neil Clarke, do outro lado, mantém revisão humana e escreve que "a tecnologia nunca deve ter a última palavra". e17.1 segue porque quando o exame do texto não decide, decide-se por procedimento sobre a pessoa. e17.2 e e17.2.1 são o custo: o ônus recai sobre quem não tem nome feito, e o falso positivo vira dano.
R4 · e18 — a coautoria vira gênero. Foi empurrado de 2033 para 2036 e rebaixado a confiança baixa: a classe de referência é dura. A fotografia levou décadas para ser aceita como arte; o sampler levou cerca de quinze anos e uma leva de processos judiciais; o autotune nunca virou crédito, apenas prática silenciosa. Não há razão para supor que a coautoria com máquina tenha percurso mais rápido do que qualquer um desses — e e18.2.1 registra o desfecho ambíguo: categoria separada normalmente esvazia ou engole a principal, e nos dois casos a distinção some.
5.2 Cobertura STEEP e quem perde
| Dimensão | Efeitos de 1ª ordem que a cobrem |
|---|---|
| Social | e2 (descoberta), e4 (recusa ao rótulo), e7 (crítica sem objeto), e17 (suspeita como norma) |
| Tecnológico | e1 (build como pitch), e6 (custo por sessão), e9 (liberdade conversacional ≠ narrativa), e11 (tradução sobreposta) |
| Econômico | e2, e3 (contratação por restrição), e6, e12 (localização muda de unidade), e16 (selo pago) |
| Ecológico | categoria vazia — ver nota abaixo |
| Político / regulatório | e8 (classificação indicativa), e10 (dado pessoal), e13 (voz com contrato), e15 (declaração obrigatória) |
A categoria ecológica ficou vazia, e isso é uma escolha declarada, não um esquecimento. O custo energético da inferência é real e aparece indiretamente em e6 (custo por sessão), mas não achei, nas 24 fontes abertas, nenhum dado que ligasse consumo energético especificamente à narrativa gerada em oposição a qualquer outra inferência. Forçar um efeito ecológico aqui seria escrever algo que serve igualmente a todos os 19 temas da disciplina — exatamente o anti-padrão que a skill proíbe. Fica registrado como buraco: quem retomar este mapa com dado de consumo por token em contexto longo tem um ramo inteiro para abrir.
Quem perde, nomeado:
| Quem | Por qual efeito | O que perde |
|---|---|---|
| Autor estreante sem rede social | e2.2.1 | o acesso, justamente quando produzir ficou barato |
| Tradutor júnior de jogos | e12.1 | o degrau de entrada da carreira |
| Tradutor amador de comunidade | e11.3 | um ofício de trinta anos, por obsolescência |
| Dublador brasileiro | e13.2 | o trabalho, por duas vias opostas — síntese barata ou fuga do mercado protegido |
| Autor individual sem operador | e8.1.1 | o direito de publicar obra generativa sem ser serviço regulado |
| Autor de país sem certificadora | e16.2 | a presunção de autoria |
| Autor de qualquer obra | e11.2 | o controle sobre a primeira impressão em outra língua |
| Crítico e professor de literatura | e7 | o objeto comum que torna a conversa possível |
| Escritor de jogo pago por volume | e3 | a unidade de cobrança |
| Leitor | e10.2 | a conversa, que vira corpus |
5.3 Convergências
Três ramos de raízes diferentes chegam ao mesmo lugar. São os achados mais valiosos do mapa, porque nenhum deles é visível olhando uma raiz de cada vez.
C1 — A prova de processo. e4.1.1 (produzir prova de autoria durante a escrita, vindo de R1, pela recusa do público) e e16.1.1 (a certificação migra de atestado para evidência de processo, vindo de R4, pela falência do selo) são o mesmo efeito por dois caminhos independentes: um puxado pelo mercado, outro pela instituição. Quando dois vetores distintos apontam para a mesma solução técnica, ela costuma acontecer. Se este mapa estiver certo em uma coisa só, é nesta: o registro de processo de escrita vira infraestrutura, e escrever vira uma atividade logada. É também o efeito mais desconfortável do mapa, porque resolve o problema da autoria criando um problema de vigilância.
C2 — A obra que vira serviço. e8.1 (responsabilidade migra para o operador, vindo de R2) e e11.1 (distribuição migra de exclusividade de língua para exclusividade de serviço, vindo de R3) convergem em: o que se vende deixa de ser a obra e passa a ser a operação em torno dela. Duas causas sem relação — regulação de conteúdo e vazamento de língua — produzindo a mesma mudança de modelo de negócio.
C3 — O humano como atributo de produto. e4.2 (dois mercados com dois preços, de R1), e9.2 (ramificação escrita à mão como diferencial vendido, de R2) e e16 (selo pago, de R4) convergem em: o trabalho humano deixa de ser o modo de fazer e vira uma característica anunciada na embalagem. É o efeito que mais mexe com quem projeta mídia, porque muda o briefing: passa a ser preciso decidir, antes de começar, se a obra vai ser vendida como humana.
5.4 Retroalimentações e contradições
Retroalimentação negativa (freia a raiz): e17 → R4. A falência pública da detecção reforça a raiz da autoria declarada — se não dá para verificar, só resta declarar — e ao mesmo tempo destrói o valor da declaração, porque uma declaração que ninguém audita não informa. O ciclo é: mais volume → mais suspeita → mais declaração exigida → menos valor por declaração → mais volume passando. É um ciclo que não se estabiliza sozinho, e é por isso que e4.1.1 e e16.1.1 (a prova de processo) aparecem como saída nos dois ramos.
Retroalimentação negativa: e9 → R2. Quanto mais se vende a promessa de história única, mais rápido o público mede que a história não é única, e mais cara fica a próxima promessa. A consequência é que R2 se desacelera por sucesso, não por fracasso técnico.
Retroalimentação positiva: e12.2 → R3. Estúdios que lançam em dez línguas no dia um geram mais texto traduzido por máquina em circulação, o que normaliza ler traduzido por máquina, o que baixa a resistência à sobreposição não licenciada. A raiz se alimenta.
Contradição 1 — permanência × encerramento (e6.1 × e6.3). Em assinatura, o custo por sessão é despesa e o desenho quer encurtar; em venda unitária com servidor pago pelo estúdio, o custo por sessão também é despesa, mas a métrica de sucesso é resenha positiva, que exige permanência. Os dois desenhos não podem ser o mesmo produto. Não resolvo: registro os dois e digo o que decide entre eles — decide o modelo de cobrança, e ele será escolhido antes do desenho narrativo, não depois. Quem projeta mídia precisa saber que essa decisão, que parece comercial, é a decisão estética.
Contradição 2 — declarar × esconder (e4 × e15). O mercado pune quem declara e o regulador pune quem não declara. Os dois efeitos são fortes, ambos com evidência, e são incompatíveis como estratégia. O que decide: a jurisdição de maior receita. Enquanto a receita vier majoritariamente de mercados sem obrigação executável, esconder ganha; quando a UE ou a Coreia representarem parcela grande o bastante e a fiscalização for real, declarar ganha. Não é uma questão de ética do estúdio — é aritmética de faturamento, e isso deveria ser dito em voz alta.
Contradição 3 — a obra sem original × a obra que se aplaina (e5 × e14). Se o texto nasce em n línguas simultaneamente (e5), não faz sentido escrever pensando em traduzir (e14). Os dois efeitos assumem futuros diferentes para a mesma raiz. O que decide entre eles: se a geração multilíngue simultânea alcança qualidade literária. Se alcançar, e14 morre; se não alcançar, e5 morre. Os dois estão no mapa porque hoje não há evidência que resolva — e o Narrative Flattening, ao mostrar que o pós-treino comprime mais justamente contra a ficção literária profissional, inclina levemente a favor de e14.
5.5 Regra de parada
Parei a derivação em três níveis por imposição do formato, mas em quatro ramos parei antes, por falta de troca de ator ou de mecanismo — e registro quais, porque continuar ali teria produzido o mesmo efeito envelhecido com outro nome:
e2.3(preço cai, assinatura substitui venda) não teve filho: qualquer continuação seria "e aí o mercado de assinatura cresce", que é o mesmo efeito adiante.e6.2(arquitetura híbrida) não teve filho: os candidatos que escrevi eram detalhamento técnico do próprio híbrido, não consequência com outro ator.e11.2ee11.3não tiveram filho pelo mesmo motivo.e13.2(efeito do PL 2338) não teve filho porque a continuação depende inteiramente de uma decisão legislativa que ainda não ocorreu; derivar dali seria ficção sobre ficção.
6. Sinais fracos e wildcards
6.1 Sinais fracos
SF1 — A obra lida numa língua que ninguém licenciou. Onde foi visto: LunaTranslator, GPLv3, hook de memória em "quase todas as novelas visuais", OCR embutido, hook de emuladores de NS/PSP/PSV/PS2 e embutimento da tradução de volta na tela. O que mudaria: se isso sair do nicho de novela visual japonesa e virar camada de sistema operacional ou de loja, a localização deixa de ser uma etapa e vira um recurso do dispositivo — e o mapa inteiro de R3 acelera cinco anos. Sinal observável de que está crescendo: uma loja grande (Steam, Epic, Google Play) embutir tradução sobreposta como recurso de plataforma, ou um fabricante de console anunciá-la no firmware. Métrica secundária: a fatia de declarações de IA em localização na Steam passar de 18% entre os jogos bem-sucedidos para acima de 40%.
SF2 — A isenção de obra artística do Artigo 50. Onde foi visto: o texto do Art. 50 reduz a obrigação de divulgação quando o conteúdo integra "uma obra ou programa evidentemente artístico, criativo, satírico, ficcional ou análogo", exigindo apenas informar de modo que não atrapalhe a fruição. O que mudaria: toda a ficção gerada escapa da marcação visível, e o regime de declaração que o resto deste mapa assume simplesmente não se aplica ao objeto deste mapa. É o sinal fraco que mais poderia inverter as conclusões de R4. Sinal observável: a primeira decisão de autoridade nacional, ou a primeira versão do Código de Conduta do AI Office sobre marcação, que diga se um jogo narrativo generativo é "obra evidentemente artística". Data provável do primeiro teste: o fim do prazo de adequação em 02/12/2026.
SF3 — O achatamento narrativo medido, não opinado. Onde foi visto: Narrative Flattening (arXiv 2605.27878) medindo, ao longo de quatro checkpoints do OLMo 32B, que o pós-treino comprime movimento temático, intensidade afetiva e diversidade estilística — com a maior perda contra ficção literária profissional e convergência entre domínios. O que mudaria: se a compressão for inerente ao alinhamento e não um artefato de receita, então "cada leitor, uma história" é tecnicamente contraditório com "modelo seguro e comportado", e o produto que R2 promete não pode existir sem abrir mão da segurança. Sinal observável: aparecer um modelo pós-treinado que não comprime as três dimensões — ou uma linha de modelos vendida explicitamente como "pós-treino para variação", com métrica publicada.
SF4 — A obra que apaga a si mesma por pedido de dado. Onde foi visto: não em produto, mas na colisão lógica entre memória longitudinal de personagem (que a survey de jogos nativos de IA nomeia como problema central) e direito de eliminação de dado pessoal. O que mudaria: o primeiro pedido de exclusão que apagar uma história de duzentas horas cria jurisprudência sobre se a obra vivida pertence ao leitor ou ao autor. Sinal observável: a primeira política de privacidade de jogo narrativo que trate explicitamente o enredo como dado do titular — ou a primeira reclamação em autoridade de proteção de dados sobre isso.
SF5 — A performance de autoria como prova. Onde foi visto: o silêncio de Jamir Nazir diante do New York Times e do Guardian pesou tanto na discussão quanto o detector; e Neil Clarke descrevendo revisão humana como último recurso. O que mudaria: se a prova de autoria virar procedimento sobre a pessoa — entrevista, defesa, escrita presenciada —, o prêmio literário se aproxima do concurso público e da banca acadêmica, e a obra deixa de bastar. Sinal observável: o primeiro prêmio literário de porte que exija arguição do autor finalista como etapa formal do regulamento.
SF6 — A base instalada que não se mexe. Onde foi visto: Ren'Py 8.5.3 (15/05/2026), 8.000+ obras, nenhuma menção a IA na página do projeto; IFComp 2026 proibindo conteúdo gerado voltado ao jogador. O que mudaria: é um sinal fraco ao contrário — indica que a comunidade histórica da ficção interativa pode não ser absorvida, e sim se constituir como reserva declarada. Se a reserva crescer em vez de encolher, R1 encontra um teto cultural que os números da Steam não mostram. Sinal observável: o número de inscrições na IFComp subir, e não cair, nos dois anos seguintes à regra de 2026.
6.2 Wildcards
W1 — Um prêmio literário de primeira linha premia uma obra e depois descobre que ela foi gerada; ou acusa e erra. Mecanismo: o júri lê às cegas, a detecção não é usada (por consentimento e propriedade artística, como a Commonwealth Foundation argumentou), o vencedor é anunciado, e a prova aparece depois — ou não aparece nunca, como no caso de 2026, e a dúvida fica. Por que é improvável: porque prêmios grandes têm camadas de leitura e relação prévia com agentes e editoras, que funcionam como filtro social antes do texto. O que faria com o mapa: acelera e17.1 (migração para procedimento) em cerca de cinco anos e torna e16 (selo pago) obrigatório de fato, não voluntário; e se a acusação for falsa, torna e17.2.1 (litígio por falso positivo) um efeito de 1ª ordem, não de 3ª. Sinal precoce: um prêmio de porte incluir no regulamento cláusula de revogação retroativa por uso de IA. Nota honesta: este wildcard já quase aconteceu em 2026 no Commonwealth Short Story Prize, o que é motivo para tratá-lo como sinal forte, e não como wildcard — mantive-o aqui porque a versão completa (prova conclusiva, revogação, consequência) ainda não ocorreu.
W2 — Um tribunal decide que a tradução sobreposta em tempo de execução não é obra derivada. Mecanismo: a sobreposição não modifica nem redistribui o arquivo original; ela lê a memória do processo na máquina do usuário e desenha por cima. Um tribunal pode enquadrar isso como acessibilidade e uso pessoal, e não como derivação. Por que é improvável: porque a indústria de mídia tem histórico de vitória nesse tipo de disputa e recursos para litigar. O que faria com o mapa: R3 deixa de ter freio jurídico e e11 e e11.1 passam a valer para vídeo e livro também, não só para jogo — e a localização como indústria encolhe muito mais rápido do que e12 supõe. Sinal precoce: um fabricante de sistema operacional embutir tradução sobreposta de tela com defesa jurídica pública, ou uma decisão sobre leitores de tela e acessibilidade que se estenda por analogia.
W3 — O custo de inferência cai duas ordens de grandeza e o modelo roda inteiro no dispositivo. Mecanismo: modelo pequeno, especializado em narrativa, rodando local. Por que é improvável: porque a qualidade narrativa hoje depende de contexto longo, e contexto longo é justamente o que consome memória — o caminho técnico existe, mas não é o que os números de consistência de 2026 sugerem estar perto. O que faria com o mapa: mata e6 inteiro (custo por sessão desaparece), mata e8.1 (sem operador, não há para quem migrar responsabilidade), mata e10.2 (sem servidor, a conversa não vira corpus de ninguém) e devolve R2 ao autor individual. É o wildcard que mais melhora o mapa para quem escreve sozinho, e o único que desfaz três efeitos de uma vez. Sinal precoce: um jogo narrativo comercial de porte enviar o modelo junto com o jogo, sem chamada de rede — e não pedir assinatura.
W4 — Uma obra gerada se torna best-seller mundial com a coautoria assumida na capa. Mecanismo: não é qualidade média, é cauda: milhões de obras geradas, uma delas encontra o público. Por que é improvável: porque o Narrative Flattening sugere que a distribuição de saída do modelo é mais estreita, não mais larga — a cauda é justamente o que o pós-treino corta. O que faria com o mapa: e18 (coautoria vira gênero) salta de 2036 para dois anos depois do evento, e e4 (recusa ao rótulo) se inverte de custo para atrativo. Sinal precoce: uma obra com selo declarado de coautoria entrar em lista de mais vendidos de grande imprensa por mais de quatro semanas.
7. Contra o próprio mapa
O que segue é o resultado da bateria do §6 da skill, aplicada ao mapa já pronto, com o mapa alterado em seguida. O registro auditável está em 7.8.
7.1 Pré-mortem: é 2041 e este mapa está errado. Por quê?
Razão 1 — A geração nunca resolveu a consistência em extensão, e o objeto deste mapa simplesmente não chegou a existir. Em 2041, obra narrativa gerada inteira continua sendo curiosidade de cinco minutos; o que se consolidou foi a IA como ferramenta de produção (localização, voz, arte) dentro de pipelines humanos, que é exatamente o que os números da Steam de 2026 já mostravam e ninguém quis ler. Os dados apontam para isso hoje: 0,113 erro por 10 mil palavras em obras de 8 a 10 mil, queda de 0,20 no Plot-Beat F1 quando o horizonte vai a 200 episódios, e a fronteira não-côncava entre consistência e riqueza do WSE-bench. Aponta para: R1 e R2. Consequência aplicada: rebaixei e7 (prazo 2032→2036, confiança média→baixa) e e18 (2033→2036, média→baixa), e mantive e6.2 (arquitetura híbrida) com sinal forte — porque, se esta razão se confirmar, e6.2 é o efeito que sobra de pé.
Razão 2 — O regime de declaração não pegou porque a isenção de obra artística engoliu a ficção inteira. Em 2041, todo mundo declara na loja e ninguém marca legivelmente por máquina, porque jogo e romance são "obra evidentemente artística" na acepção do Art. 50, e a marcação ficou restrita a notícia, publicidade e deepfake de pessoa real. Aponta para: R4, e especialmente e15.1. Consequência aplicada: promovi a isenção a sinal fraco próprio (SF2) e escrevi e15.2 como efeito explícito em vez de nota de rodapé, com confiança média — porque o texto legal está aberto e a interpretação, não.
Razão 3 — A recusa cultural foi mais forte e mais duradoura do que este mapa supõe. Em 2041, "gerado" é um rótulo de baixo prestígio consolidado, como "direto para vídeo" ou "sampler não creditado" foram, e o mercado se estabilizou com a obra gerada ocupando o rodapé do catálogo. Os 52% de 2026 viraram 70%, o público treinou o olho, e o valor econômico ficou onde já estava em 2026: 30,8% dos lançamentos e 10–27% das vendas. Aponta para: toda a cadeia de R1 que assume normalização. Consequência aplicada: removi e1.2 e rebaixei e1 de confiança alta para média; e mantive e4 (a retroação) com sinal forte e confiança alta, que é o efeito que essa razão mais reforça.
7.2 Extrapolação linear — o que é só "mais do mesmo, maior"
e2(catálogo cresce, descoberta vira gargalo). É extrapolação, e assumidamente: o catálogo de jogos e de livros já crescia antes. Não-linearidade que o salva: o crescimento não é do catálogo, é da razão entre obras publicáveis e horas de atenção humana — e o dado de que a IA responde por 60 a 90% de todo o crescimento de lançamentos da Steam, com receita parada, é a assinatura de uma quebra de regime, não de uma curva contínua. Mantido.e12(localização se reorganiza). É extrapolação pura da adoção de pós-edição, que já roda há uma década. Não-linearidade que o salva: o gatilho não é a qualidade da tradução, é o deslocamento do agente — a tradução passa a poder ser feita pelo leitor, contra a vontade do distribuidor. Mantido, mase12.1.1foi empurrado para 2043, fora do horizonte.e14(escrever para a máquina traduzir). É extrapolação, e não tem não-linearidade: é linguagem controlada, que existe desde os anos 1970 em documentação técnica e nunca contaminou a ficção. Rebaixado a confiança baixa, e o filhoe14.1(obra intraduzível vira nicho declarado) foi removido, porque já existe hoje sem qualquer relação com esta raiz.
7.3 Velocidade de adoção, confrontada com classe de referência
| Efeito | Prazo original | Referência usada | Veredito |
|---|---|---|---|
e5 (obra sem original) | 2033 | tradução neural: 2016 → uso corrente ~2022-24, ~7 anos; qualidade literária multilíngue é mais difícil | empurrado para 2035 |
e7 (crítica sem objeto) | 2032 | Bandersnatch (2018): narrativa adaptativa de massa não gerou categoria em 7 anos | empurrado para 2036 e rebaixado |
e18 (coautoria vira gênero) | 2033 | fotografia como arte: décadas; sampler: ~15 anos e litígio; autotune: nunca virou crédito | empurrado para 2036 e rebaixado |
e12.1.1 (falta de sênior) | 2040 | revisão tipográfica: posto de entrada some nos anos 1990, falta sentida ~2005, ~10-15 anos | empurrado para 2043, fora do horizonte, declarado |
e1.1.1 (ensino reabsorvido) | 2038 | currículo universitário muda em ciclos de 8-10 anos, e o gatilho é de 2031 | empurrado para 2042, fora do horizonte, declarado |
e2 (descoberta vira gargalo) | 2028 | já está acontecendo: 13 → 530 lançamentos/mês com IA declarada | mantido |
e15 e e16 (declaração e selo) | 2028 | já em vigor: Art. 50 desde 02/08/2026; Human Authored público desde 02/03/2026 | mantidos |
7.4 A raiz que não acontece
- Se R1 não se concretizar (a obra inteira nunca fica boa o bastante): sobram R3 e R4 quase intactos — a tradução sobreposta não depende de gerar história, e o regime de declaração já está em vigor por causa de imagem e voz. R2 perde força, mas não morre: Whispers from the Star existe sem que a obra inteira seja gerada. Sobra a maior parte do mapa. Bom sinal.
- Se R2 não se concretizar (a obra que se instancia por leitor não sai do nicho): caem
e6ae10quase inteiros, o que é um quinto do mapa. R1, R3 e R4 seguem. Sobra bastante. - Se R3 não se concretizar (a sobreposição é barrada juridicamente ou tecnicamente): caem
e11ae14. Mase12sobrevive por outra via — a localização já se reorganiza por pós-edição contratada, sem sobreposição pirata. Efeito colateral:e12falha no teste da causa solta (ver 7.5). - Se R4 não se concretizar (o regime de declaração não pega): caem
e15ae18. Mase4(recusa ao rótulo, em R1) sobrevive sozinho, porque a recusa é de público, não de regulador. Sobra o mercado sem a lei.
Nenhuma raiz é disfarce de outra: cada uma pode falhar isoladamente sem levar o mapa junto. O caso mais próximo de dependência é R1↔R2 (as duas assumem geração de qualidade), e por isso as separei pelo que rompem, não pelo que usam: R1 rompe a unidade de produção, R2 rompe a identidade da obra. Uma obra gerada inteira e distribuída como cópia fixa satisfaz R1 sem R2 — é o que o MangoBox faz.
7.5 Teste da causa solta
Removi cada raiz e perguntei se o efeito aconteceria do mesmo jeito por outro motivo.
e1.2(o funil de publisher passa a rejeitar por "isso é só um prompt"): publishers já rejeitam por falta de esforço demonstrado, e continuariam rejeitando sem R1. Removido → seção 12.1.e14.1(obra intraduzível vira nicho declarado): já existe, e existe por razões estéticas anteriores a qualquer máquina. Removido → seção 12.1.e12(localização se reorganiza em torno de revisão): aconteceria sem R3, por pós-edição contratada. Não removi porque o mecanismo muda de dono — sem R3, quem decide é o cliente; com R3, quem decide é o leitor —, mas rebaixei a confiança do filhoe12.1de alta para média e registro aqui que este é o ramo mais frágil do mapa quanto à atribuição causal.e10(obra vira controladora de dado pessoal): sobrevive ao teste, porque a memória longitudinal de personagem só existe se a obra se instancia por leitor. Mantido.e16(selo pago): sobrevive, porque o selo do humano só faz sentido contra a indistinguibilidade que R4 institui. Mantido.
7.6 Suposições escondidas
- Que o custo de inferência continua caindo, mas não despenca. Se despencar (W3), três efeitos morrem. Se subir — energia cara, escassez de chip —,
e6vira o efeito dominante do mapa e R2 não sai do nicho. O mapa está escrito supondo a faixa do meio, o que é a suposição mais confortável e menos justificada que ele tem. - Que o modelo aberto continua aberto. Todo o ramo do autor individual —
e8.1.1, W3, parte dee11— supõe que existirá modelo bom rodando fora de plataforma. Se a fronteira fechar, obra generativa passa a ser necessariamente serviço de terceiro, ee8.1.1(o autor solo empurrado para fora) deixa de ser efeito de 3ª ordem e vira condição de partida. - Que a plataforma continua permitindo. Valve podia ter proibido em vez de criar campo de declaração. Criou campo. Se uma loja grande proibir obra gerada em execução, R2 perde o único canal comercial que tem.
- Que o público continua sendo o árbitro. O mapa supõe que a recusa do público (
e4,e9) tem força econômica. Se a distribuição se concentrar mais — recomendação algorítmica decidindo o que se vê —, a recusa vira ruído ee4some. - Que "obra" continua sendo uma categoria com que as pessoas se importam. É a suposição mais invisível deste mapa e a que o tema mais ameaça. Toda a seção R4 supõe que alguém quer saber quem escreveu. Talvez, em 2041, não queira — e nesse caso R4 inteira é ansiedade de 2026 projetada no futuro.
7.7 Viés do autor
Viés declarado no briefing: neutro. Viés real que consigo nomear:
- Viés de quem escreve. Este mapa dá peso demais à autoria, à crítica e ao prêmio — objetos que importam muito a quem vive de texto e muito pouco a quem consome novela visual no celular. Um mapa escrito por alguém do produto teria mais
e6e menose17. Nomeio: a raiz R4 ocupa um quarto do mapa com 4 efeitos de 1ª ordem, e é discutível que a autoria seja um quarto do problema. - Viés de ferramenta aberta. Escolhi o LunaTranslator como âncora de R3 em parte por ser bonito como caso — pequeno, livre, de consequência enorme. Um levantamento mais frio talvez achasse que a sobreposição não licenciada é marginal e que o que importa é a pós-edição industrial, que é chata e é onde está o dinheiro.
- Viés de proximidade com a zona de interesse. "Simulação e mundos" puxa o mapa para o jogo. Quadrinho, audiolivro, podcast ficcional e roteiro publicitário — todos afetados — aparecem pouco. O webtoon entrou só porque a Coreia legislou.
- Viés de gostar do tema. Efeitos como
e7.1.1(arquivar a obra exige arquivar o modelo) ee10.2.1(histórias que não aprendem) estão aqui porque são bonitos de pensar, não porque a evidência os sustente. Ambos estão com sinal fraco e confiança baixa, que é o mínimo honesto.
7.8 Registro de alterações — antes → depois
A bateria derrubou ou rebaixou pelo menos um efeito em cada raiz, como a cota exige.
R1 — obra instanciada a partir de intenção curta
e1: confiança alta → media, porque a classe de referência (vertical slice substituindo o design document) mostra substituição parcial, não total, em cinco anos.e1.2: removido (vai para a seção 12.1), porque falha no teste da causa solta — publishers já rejeitam pitch sem esforço demonstrado, sem qualquer relação com esta raiz.e5: prazo 2033 → 2035, porque a referência da tradução neural (~7 anos de "funciona" a "corrente") é o piso, e qualidade literária multilíngue é mais difícil que qualidade utilitária.e1.1.1: prazo 2038 → 2042, porque currículo muda em ciclos de 8-10 anos e o gatilho é de- Fica fora do horizonte de 2041, declarado.
R2 — obra instanciada diferente por leitor
e7: prazo 2032 → 2036 e confiança media → baixa, porque Bandersnatch (2018) mostrou que narrativa adaptativa de massa pode não gerar categoria em sete anos, e a crítica só perde o objeto se houver volume.e7.1: prazo 2034 → 2038 ee7.1.1: 2038 → 2040, por arrasto do pai.e7.2: prazo 2033 → 2035 e confiança media → baixa, mesma razão.e6.2: mantido com sinal forte e confiança alta, contra a regra de que 2ª ordem não tem alta — justificado no texto por três medidas independentes (survey, WSE-bench, ConStory-Bench).
R3 — tradução sobreposta
e14: confiança media → baixa, porque é extrapolação linear sem mecanismo de não-linearidade: linguagem controlada existe há cinquenta anos e nunca alcançou a ficção.e14.1: removido (seção 12.1), porque "obra intraduzível vira nicho" já é verdade hoje, por razões anteriores a esta raiz.e12.1: confiança alta → media, porque o ramoe12inteiro falha parcialmente no teste da causa solta (aconteceria por pós-edição contratada).e12.1.1: prazo 2040 → 2043, pela referência da revisão tipográfica. Fora do horizonte, declarado.e11.2: confiança alta → media, porque confiança alta em 2ª ordem exige evidência direta, e o que tenho é inferência a partir do funcionamento do LunaTranslator.
R4 — autoria como declaração
e18: prazo 2033 → 2036 e confiança media → baixa, pelas três classes de referência de aceitação de técnica nova em arte (fotografia, sampler, autotune) — nenhuma abaixo de 15 anos, uma delas nunca concluída.e15.1.1: confiança media → baixa, porque padrão de proveniência embutido depende de coordenação entre fabricantes que hoje não existe.e15.2: promovido de nota de rodapé a efeito de 2ª ordem com filho, porque a isenção de obra artística é o mecanismo mais consequente e menos discutido de toda a raiz.
Calibração após as alterações. Ordem 1: 9 alta · 6 media · 3 baixa. Ordem 2: 1 alta · 28 media · 8 baixa. Ordem 3: 0 alta · 0 media · 21 baixa. A distribuição cai com a ordem, como deve. A única confiança alta de 2ª ordem é e6.2, e está justificada no texto.
A bateria derrubou alguma coisa? Sim: dois efeitos removidos, seis rebaixados de confiança e sete prazos empurrados, dois deles para fora do horizonte. Não escrevo aqui "a bateria não derrubou nada".
8. O que a máquina errou
Eu sou a máquina. Sobre este trabalho, nesta rodada:
- Citei a lição do GDC 2026 sem ter aberto a fonte primária. A frase "liberdade conversacional não é liberdade narrativa" e o dado de custo por sessão vieram de resumo de busca sobre o texto de Hilary Mason e Eleanor Todd; tanto o artigo no Medium quanto a página da sessão na GDC devolveram 403. Corrigi reescrevendo
e9inteiro para se apoiar em três fontes que abri (survey arXiv 2607.00527v2, WSE-bench, ConStory-Bench), e a frase não aparece como citação em lugar nenhum do mapa. A tentação de citá-la assim mesmo foi real: ela é boa demais e resume o efeito melhor do que eu.
- Usei um dado da Nimdzi sobre localização de jogos que não consegui abrir. A frase de que verticais como videogame "caíram no ranking, fortemente impactadas por melhorias rápidas na localização por IA" apareceu em resultado de busca; a página da Nimdzi devolveu 403. Não entrou no documento —
e12está ancorado apenas no estudo dos 53.597 lançamentos da Steam, que abri. Registro aqui porque a tentação de citar "Nimdzi 2026" como se eu tivesse lido é exatamente o erro que esta seção existe para pegar.
e8.2(classificação indicativa brasileira) não tem fonte aberta. Escrevi um efeito sobre o regime brasileiro de classificação indicativa sem ter aberto uma única fonte sobre ele. Está com sinal fraco e confiança baixa, mas isso não basta: é inferência a partir do que sei de memória, e a memória é exatamente o que não deveria sustentar afirmação em mapa com fonte. Quem retomar, comece por aí.
- Atribuí ao MangoBox mais peso do que a evidência sustenta. É a única âncora de produto para R1 e tem uma página "about" de uma frase, sem número de usuário, de obra ou de preço. Construí uma raiz inteira sobre um objeto que não consigo dimensionar. O que compensa parcialmente é que a raiz R1 não depende do MangoBox — depende do mecanismo —, mas se alguém perguntar "quantas obras assim existem?", a resposta honesta é que não sei.
- Datei mal uma fonte brasileira na primeira versão desta seção. A audiência sobre dublagem e IA na Câmara é de 29/08/2024, não de 2026; eu a havia tratado como recente porque apareceu numa busca com termos de 2026. Corrigido no texto e na seção 11. O PL 2338/23 segue em tramitação, e
e13.2está escrito como condicional justamente por isso.
- A frase "um erro de consistência por obra curta" é minha, não do paper. O ConStory-Bench reporta 0,113 erro por 10 mil palavras em histórias de 8 a 10 mil palavras; multiplicar isso e dizer "cerca de um erro por obra" é uma leitura razoável, mas é minha, e um revisor pode objetar que a métrica não se lê assim. Deixei a conta explícita no texto para que a objeção seja possível, em vez de esconder o arredondamento.
- Nomeei prazos com precisão que a evidência não tem. "2029", "2031", "2036" sugerem uma resolução que não existe: em quase todos os casos, a faixa honesta seria de três a cinco anos. Usei ano cheio porque o formato exige inteiro, e cada prazo tem classe de referência escrita no §5.1 — mas quem ler a tabela sem ler a prosa vai atribuir ao mapa uma precisão que ele não tem.
9. Três cenários para 2041
Provável. A obra narrativa gerada inteira existe e é abundante, e quase nada dela é lido. O desenho que venceu é o híbrido: regra no controle, modelo na superfície — o mesmo que os benchmarks de 2026 já indicavam. O que mudou de verdade em quinze anos não foi a história: foi a língua. A tradução sobreposta virou recurso de plataforma e ninguém mais decide em que idioma lança, porque a decisão não retém ninguém; a localização se reorganizou em torno de adaptação cultural e de voz, que é a única camada com dono contratado, e há uma geração faltando de tradutores seniores. A autoria virou declaração: toda loja, prêmio e editora tem seu campo, nenhum campo fala com o outro, o selo humano custa dinheiro e ninguém o audita. A suspeita é a condição normal de leitura, e o custo dela recai sobre quem não tem nome feito. Escritores de jogo são contratados para dizer o que o sistema não pode dizer. Sinal precoce de que estamos entrando neste cenário: uma loja grande embutir tradução sobreposta como recurso de plataforma, enquanto a fatia de receita dos jogos com IA declarada continua abaixo de um terço.
Desejável. A geração ficou onde é boa — atravessar a língua, baixar o custo de mostrar — e a coautoria virou ofício com convenção de crédito, como a montagem e a direção de fotografia viraram no cinema. Existe uma ficha técnica: quem definiu a intenção, quem curou, quem revisou, qual modelo. A prova de autoria é de processo, não de detecção, e é do autor — um registro que ele controla e exibe se quiser, não uma vigilância que a plataforma opera sobre ele. Prêmios pararam de proibir e passaram a separar, e a categoria de coautoria assumida tem prestígio próprio. A tradução sobreposta foi absorvida como acessibilidade, com remuneração pactuada para quem é traduzido. O que teve de ser feito para chegar aqui: o Código de Conduta do AI Office fixou um padrão de proveniência embutido no arquivo e legível por qualquer um, em vez de deixar cada plataforma com o seu campo; e as instituições aceitaram que não conseguem verificar, trocando detecção por procedimento antes de destruir a reputação de alguém por falso positivo. Sinal precoce: um padrão de proveniência adotado por mais de uma plataforma grande e por um prêmio literário, no mesmo ano.
Indesejável. A escrita virou atividade logada. Para publicar, provar; para provar, registrar; para registrar, usar a ferramenta que a plataforma aceita — e a plataforma guarda o histórico de composição de todo mundo. A certificação virou barreira de entrada: quem tem instituição nacional que certifique é presumido autor, quem não tem é presumido gerado, e o Sul global escreve sob suspeita. A obra narrativa virou serviço regulado, e o autor individual não consegue publicar ficção generativa sem operador. A crítica sumiu porque não há objeto comum, e o que restou de conversa sobre obra acontece dentro de comunidades que fixaram uma execução canônica por convenção — cada uma com a sua, incomunicáveis entre si. A dublagem em português acabou por dois lados ao mesmo tempo: síntese barata onde não há lei, e fuga do mercado onde há. Sinal precoce deste cenário: a primeira plataforma que exigir histórico de composição como condição de publicação — e for aceita sem reação, por ser apresentada como proteção ao autor.
10. O experimento
A Mesma História Duas Vezes
O que é. Uma obra narrativa curta, gerada, executada duas vezes com leitores diferentes, e um protocolo de leitura cruzada em sala. Três partes:
- O gerador. Uma novela visual curta (20-30 minutos) gerada a partir de uma intenção de duas frases, com um caderno de invariantes escrito à mão antes: dez a quinze fatos que não podem mudar entre execuções (quem é quem, o que aconteceu antes, o que é impossível neste mundo).
- O duplo. A mesma obra executada por duas pessoas, com semente e versão de modelo registradas. As duas execuções são gravadas na íntegra: entrada do leitor, saída do sistema, tempo, custo de inferência por sessão.
- O confronto. As duas pessoas conversam sobre "o livro que leram" sem ver a execução da outra, com uma terceira pessoa anotando onde a conversa quebra — em que momento exato as duas descobrem que não leram a mesma coisa, e o que fazem em seguida.
Que pergunta sobre o futuro ele ajuda a responder. A de e7 e e7.2, que é a mais incerta do mapa e a que menos se resolve com bibliografia: ainda existe "a obra" quando ela se instancia diferente para cada leitor, e as pessoas conseguem conversar sobre ela? A hipótese do mapa é que não — e que as comunidades respondem fixando uma execução canônica por convenção social. O experimento testa exatamente isso, em pequeno, com gente de verdade.
Que tecnologia emergente ele usa, e por que não dá com a madura. Usa geração multimodal de obra inteira a partir de intenção curta (R1) e instanciação por leitor (R2). Com tecnologia madura não dá, e a razão é precisa: em Ren'Py ou Twine, as duas execuções seriam dois caminhos de um mesmo grafo escrito por alguém — as duas pessoas teriam lido a mesma obra por rotas diferentes, que é uma experiência que existe desde os livros-jogos dos anos 1980 e sobre a qual não há nada de novo a descobrir. O que o experimento precisa é que o texto que a segunda pessoa leu nunca tenha existido antes de ela ler, e isso nenhuma ferramenta madura faz.
O que a turma faz ao testar em sala. Cada dupla executa e grava. Depois, em plenário: (a) medimos quantos dos invariantes do caderno foram violados em cada execução — é a versão de sala do ConStory-Bench, e o número costuma surpreender; (b) cronometramos quanto tempo a conversa leva até quebrar; (c) a turma decide, coletivamente e por argumento, qual execução vai ser a canônica — e o que exatamente ficou de fora quando decidiu; (d) cada pessoa escreve três linhas de resenha e vemos se as resenhas são comparáveis entre si. O item (c) é o coração do experimento: é ali que e7.2 acontece ou não acontece na frente de todo mundo.
O que seria um resultado que me faria mudar de ideia. Dois, e são simétricos:
- Se a conversa NÃO quebrar — se as duas pessoas discutirem a obra por vinte minutos sem encontrar incompatibilidade, ou encontrando e não se importando —, então
e7está errado,e7.2é desnecessário, e a suposição implícita de todo o ramo R2 (que a identidade da obra importa para o leitor) cai. Nesse caso o mapa perde um quinto do que afirma, e eu teria descoberto que a ansiedade sobre "a obra" é de quem escreve sobre obras, não de quem as consome — que é exatamente o viés que declarei em 7.7. - Se os invariantes NÃO forem violados — se um caderno de dez a quinze fatos escrito à mão bastar para segurar uma obra de trinta minutos sem erro —, então o teto de consistência que sustenta
e6.2,e9e boa parte de R1 é mais alto do que os benchmarks de 2026 sugerem, e os prazos de R1 e R2 precisam ser puxados para mais perto, não empurrados.
Custo e viabilidade. Roda em uma aula com ferramenta de navegador e um modelo comercial. O caderno de invariantes é escrito na aula anterior, em vinte minutos. O que não dá para improvisar é a gravação completa das duas execuções: sem ela, o item (a) vira impressão, e impressão é o que este experimento existe para substituir.
11. Fontes
Vinte e quatro fontes abertas e lidas em 12/09/2026. Fonte que não abriu não entrou — as que devolveram 403 e o que eu teria citado delas estão em 12.4. Todos os links foram conferidos com o mesmo método do verificador; a saída está em 12.6.
- IFComp — regras da 32ª edição (2026).
https://ifcomp.org/rules/Sustenta a regra de que "todo o conteúdo voltado ao jogador precisa ser inteiramente criado por humanos, incluindo arte de capa, prosa e todos os assets", com IA permitida só para assistência ao desenvolvimento. Confiabilidade: alta — é o regulamento na fonte, não noticiado.
- MangoBox — página "about".
https://www.mangobox.ai/aboutSustenta a existência do produto que gera novela visual jogável a partir de prompt. Confiabilidade: baixa como evidência de escala — é material do próprio fabricante, sem número de usuário, obra ou preço. Usada só para atestar existência.
- LunaTranslator — documentação oficial.
https://docs.lunatranslator.org/en/Sustenta os métodos de extração (hook de memória, OCR embutido, hook de emuladores NS/PSP/PSV/PS2), os motores de tradução incluindo LLM, e o embutimento da tradução na tela. GPLv3. Confiabilidade: alta para o que o software faz; é documentação do projeto.
- Llama & Griffin — The AI Disclosure Report, Steam Next Fest, junho de 2026.
https://www.llamagriffin.com/Data/SteamNextFestJune2026/part-2.htmlSustenta 26,5% de demos com IA declarada no pool rastreado (4.382 demos), ~20% no evento inteiro, ~60% das declarações sendo arte visual, e escrita/diálogo entre as menores fatias. Confiabilidade: média-alta — metodologia declarada (GDCo, SteamDB, declaração de desenvolvedor), mas é análise privada, não auditada.
- Cinevva — estudo de Sulka Haro sobre declaração de IA na Steam (20/07/2026).
https://app.cinevva.com/news/2026-07-20-steam-ai-disclosure-studySustenta os números centrais deste mapa: 53.597 lançamentos analisados; 10,9% (2024), 19,9% (2025) e 30,8% (2026) de lançamentos com IA declarada; 10-27% das vendas estimadas contra 3-6% em 2024; crescimento de 13 para ~530 lançamentos mensais; 60-90% de todo o crescimento de lançamentos; e a quebra por tipo — visual 72%, voz 8%, localização 6% entre os malsucedidos, contra voz 24% e localização 18% entre os bem-sucedidos. Confiabilidade: média-alta — amostra grande e método declarado, mas "sucesso" é definição do autor do estudo e as vendas são estimadas, não reportadas.
- Steam — página de Whispers from the Star (Anuttacon).
https://store.steampowered.com/app/3730100/Whispers_from_the_Star/Sustenta: lançamento em 14/08/2025, R$ 32,99, 1.659 resenhas com 80% positivas (leitura de 12/09/2026), a declaração de conversas movidas a IA em colaboração com ator, e o aviso de que o diálogo pode envolver temas sensíveis conforme a interação. Confiabilidade: alta para os fatos comerciais; a declaração de IA é do próprio estúdio.
- AI-Native Games: A Survey and Roadmap (arXiv 2607.00527v2, 03/07/2026).
https://arxiv.org/html/2607.00527v2Xu, Meng, Xu, Verbrugge, Lucas e Zhao. Sustenta: 53 jogos e protótipos analisados de 98 candidatos; aventura narrativa 45,3% (n=24); narrativa generativa/mestre de jogo 26,4% das mecânicas; e a lista de desafios abertos (geração controlável por regra, instabilidade de memória, latência e economia, dependência de modelo, moderação em execução). Confiabilidade: alta para o levantamento; é preprint, sem revisão por pares confirmada.
- ConStory-Bench — leaderboard (atualizado em 05/03/2026; arXiv 2603.05890).
https://picrew.github.io/constory-bench.github.io/Sustenta: cinco categorias e 19 subtipos de erro; histórias de 8-10 mil palavras; melhor modelo (GPT-5-Reasoning) com 0,113 erro por 10 mil palavras; concentração de erros em consistência factual e linha do tempo. Confiabilidade: média-alta — benchmark público com pipeline de avaliação automática, mas com julgamento por modelo, o que herda o viés do juiz.
- WSE-bench — When Stories Evolve (arXiv 2608.15654, 16/08/2026).
https://arxiv.org/abs/2608.15654Chen, Li, Cai, Li, Yan e Li. Sustenta: cobertura, consistência e riqueza como eixos; fronteira de Pareto não-côncava entre consistência e riqueza; escala melhorando geração sustentada sem melhorar coerência; restrição estrutural enriquecendo e encurtando. Confiabilidade: média — preprint recente; sustenta o mecanismo, não um número de mercado.
- Narrative Flattening (arXiv 2605.27878, 27/05/2026, rev. 07/09/2026).
https://arxiv.org/abs/2605.27878Li, Zhu, Wu, Bao e Evans. Sustenta: quatro checkpoints do OLMo 32B (Base, SFT, DPO, RLVR); três fontes pareadas (StoryStar, TMAS, The New Yorker); compressão progressiva de movimento temático, prevalência afetiva e diversidade linguística; maior perda contra ficção literária profissional; convergência entre domínios. Confiabilidade: média-alta — desenho experimental claro, mas uma única família de modelo aberto, o que limita a generalização.
- Elsewise (arXiv 2601.15295, 10/09/2026).
https://arxiv.org/abs/2601.15295Wang, Chung, Roemmele, Sun, Wang, Almeda, Halperin, Lu e Kreminski. Sustenta que o problema de ferramenta em 2026 é visualizar o espaço de possibilidades da narrativa ramificada, e não gerar texto. Confiabilidade: média — usei a formulação do problema, não resultados quantitativos, que não consegui extrair do PDF.
- The Conversation — o que as acusações de IA no Commonwealth Prize significam (21/05/2026).
https://theconversation.com/what-do-the-commonwealth-writers-prize-ai-allegations-mean-for-prizes-and-short-stories-283470Sustenta todo o caso Jamir Nazir: Pangram alegando 100%, a defesa de Razmi Farook sobre consentimento e propriedade artística e o "princípio de confiança", a consulta de Sigrid Rausing a um modelo, e o silêncio do autor diante do NYT e do Guardian. Confiabilidade: alta — veículo acadêmico com autoria identificada; e o próprio texto declara que a detecção é inconclusiva, em vez de afirmar culpa.
- Clarkesworld — Neil Clarke, "The Future of Dealing with AI Submissions" (ago/2025).
https://clarkesworldmagazine.com/clarke_08_25/Sustenta a migração do texto de robô para a submissão híbrida, a revisão humana como último recurso, e a frase "a tecnologia nunca deve ter a última palavra". Os números de fevereiro de 2023 (500 geradas contra 700 legítimas; spam antes não passava de 25/mês) vêm da cobertura da época referenciada pelo próprio editor. Confiabilidade: alta — é o editor descrevendo o próprio processo.
- Authors Guild — expansão da certificação "Human Authored" (02/03/2026).
https://authorsguild.org/news/human-authored-certification-expands-to-all-authors/Sustenta: beta para sócios em janeiro de 2025, público em 02/03/2026, US$ 10 por título para não sócios, gratuito para sócios, verificação de identidade por terceiro, limite de 10 títulos por ano, e o critério de uso permitido (de minimis; sumário, índice, pesquisa, brainstorming e esboço liberados). Confiabilidade: alta para as regras — é a fonte primária; baixa para "milhares de livros certificados", que é alegação da própria entidade sem número.
- EU AI Act — guia do Artigo 50.
https://artificialintelligenceact.eu/transparency-rules-article-50/Sustenta: aplicação desde 02/08/2026, prazo até 02/12/2026 para sistemas implantados, marcação legível por máquina, isenção para função assistiva de edição, e a isenção de obra evidentemente artística, criativa, satírica ou ficcional, que é o mecanismo central dee15.2. Confiabilidade: alta — é o compêndio de referência do texto legal, com o artigo citado; para uso jurídico, conferir o Jornal Oficial.
- Anime News Network — a nova lei de IA da Coreia e o webtoon (24/01/2026).
https://www.animenewsnetwork.com/news/2026-01-24/south-korea-new-ai-law-raises-questions-for-webtoon-creators-platforms/.233383Sustenta: obrigação de divulgar conteúdo gerado, marca d'água não visível e legível por máquina admitida para webtoon e animação, rótulo visível mais rigoroso para deepfake, e um ano de carência com orientação em vez de multa. Confiabilidade: média-alta — veículo especializado; o texto declara não saber os valores de multa nem se webtoon é setor de alto impacto.
- Korea Times — a indústria de webtoon e a IA (06/11/2025).
https://www.koreatimes.co.kr/lifestyle/trends/20251106/webtoon-industry-seeks-ai-edge-amid-legal-ethical-challengesSustenta a pesquisa da Korea Creative Content Agency com 800 quadrinistas: 18,3% já usaram IA generativa, 36,1% pretendem usar, 63,8% das empresas pretendem adotar, 41,3% apontam questão jurídica como maior peso, 31,3% temem perda de originalidade; e o boicote de assinatura contra a obra gerada da Naver Webtoon. Confiabilidade: alta para os números da pesquisa (agência pública); média para o relato do boicote, que é descrição jornalística sem número.
- itch.io — Generative AI Disclosure tagging (20/11/2024).
https://itch.io/t/4309690/generative-ai-disclosure-taggingSustenta: o campo e as quatro subcategorias (Graphics, Sound, Text & Dialog, Code), obrigatoriedade para quem vende assets e apenas encorajamento para jogos, tags automáticas "AI Generated" e "No AI", e a sanção de perda de indexação. Confiabilidade: alta — é o anúncio da plataforma.
- Game Developer — Valve ajusta e esclarece as regras de declaração de IA (16/01/2026).
https://www.gamedeveloper.com/business/valve-tweaks-and-clarifies-ai-disclosure-rules-for-steamSustenta a reescrita de 16/01/2026: ferramenta de fluxo de trabalho isenta; "IA para gerar conteúdo para o jogo" e "conteúdo de IA gerado durante o jogo" obrigatórios; aplicação a material de loja e marketing. Confiabilidade: alta — veículo de referência do setor, citando o texto da política.
- GDC — State of the Game Industry 2026.
https://gdconf.com/article/gdc-2026-state-of-the-game-industry-reveals-impact-of-layoffs-generative-ai-and-more/Sustenta: mais de 2.300 profissionais ouvidos; 52% dizendo que a IA generativa tem impacto negativo (30% em 2025, 18% em 2024); 7% positivo (13% em 2025); 30% dos estúdios usando ferramentas de IA contra 58% em publishers, suporte e marketing; e a quebra por disciplina — arte 64%, design e narrativa 63%, programação 59%. Confiabilidade: média-alta — amostra grande e série histórica, mas é autosseleção de respondentes da própria GDC.
- Câmara dos Deputados — dublagem pede proteção legal contra voz gerada por IA (29/08/2024).
https://www.camara.leg.br/noticias/1092791-segmento-de-dublagem-pede-protecao-legal-contra-uso-de-voz-gerada-por-inteligencia-artificial/Sustenta o pedido do setor na audiência: aprovação do PL 2338/23 (remuneração por direito autoral quando a obra alimenta IA) e do PL 1376/22 (dublagem e legendagem por empresas e profissionais sediados no Brasil), reconhecimento da dublagem como patrimônio imaterial, e os atores envolvidos (Movimento Dublagem Viva, Clube da Voz, Interartis). Atenção à data: é de 2024, não de 2026 — ver seção 8, item 5. Confiabilidade: alta — agência oficial da Câmara; não traz número sobre o tamanho do setor.
- Ren'Py — página do projeto.
https://www.renpy.org/Sustenta: versão 8.5.3 ("We Can Go to the Moon", 15/05/2026) e "mais de 8.000 novelas visuais, jogos e outras obras". E sustenta, por ausência, o sinal fraco SF6: nenhuma menção a IA. Confiabilidade: alta para versão e data; a contagem de obras é alegação do projeto.
- Phys.org — rótulos de divulgação de IA podem fazer mais mal que bem (09/03/2026).
https://phys.org/news/2026-03-ai-disclosure-good.htmlSustenta o estudo publicado no JCOM pela Universidade da Academia Chinesa de Ciências Sociais: 433 participantes recrutados pela Credamo entre março e maio de 2024, e o "efeito de cruzamento verdade-falsidade" — o rótulo de IA derruba a credibilidade da informação correta e eleva a da falsa. Confiabilidade: média — é divulgação científica de um estudo, e o objeto é credibilidade de informação, não fruição de ficção; usei como indício do mecanismo do rótulo, não como prova sobre obra narrativa.
- Diário de Pernambuco — Abragames leva 78 estúdios à gamescom 2026 (21/08/2026).
https://www.diariodepernambuco.com.br/tecnologia/2026/08/11721910-abragames-leva-78-estudios-a-gamescom-2026-e-estreia-espaco-dedicado-a-jogos-indies-nacionais.htmlSustenta a nota brasileira dee12.2: 78 estúdios e empresas, mais de US$ 138 milhões em negócios globais, 55% da receita dos estúdios nacionais vinda do mercado externo, 35 títulos no pavilhão indie. Confiabilidade: média — jornal de referência citando dados da Abragames, que é parte interessada.
12. Anexo — o levantamento bruto
12.1 Efeitos cortados na bateria da seção 7
Nada foi cortado em silêncio. Os dois removidos, na íntegra como estavam escritos:
# REMOVIDO de R1, era e1.2 — falha no teste da causa solta (§7.5)
- id: e1.2
ordem: 2
efeito: O funil de seleção de publisher passa a rejeitar projetos por serem apenas um prompt, criando um critério explícito de esforço humano no pitch
sinal: fraco
prazo: 2032
confianca: baixa
# Motivo: publishers já rejeitam pitch sem esforço demonstrado, e continuariam rejeitando sem
# esta raiz. O efeito descreve uma prática existente com vocabulário novo.
# REMOVIDO de R3, era e14.1 — falha no teste da causa solta (§7.5)
- id: e14.1
ordem: 2
efeito: A perda estilística vira escolha explícita de produto e obra intraduzível vira nicho declarado
sinal: fraco
prazo: 2035
confianca: baixa
# Motivo: já é verdade hoje, e por razões estéticas anteriores a qualquer tradução automática.
# Joyce, Guimarães Rosa e Rosa Montero não precisaram de LLM para serem intraduzíveis de propósito.
Efeitos que escrevi e descartei antes mesmo da bateria, por serem os genéricos que a skill proíbe — registro para que a próxima rodada não os reinvente:
- "Cursos de escrita criativa reorganizam o currículo." Sem nome de curso, sem mecanismo, e serve igualmente aos 19 temas da disciplina. Sobrevive apenas na forma específica de
e1.1.1, onde o mecanismo é a perda do roteiro como artefato destacável. - "Reguladores criam categoria jurídica nova para obra gerada." Substituído por efeitos com regulador nomeado e mecanismo específico:
e15.1(o atrito entre o campo da Valve e a marcação do Art. 50) ee15.2(a isenção de obra artística). - "Surge a profissão de curador de IA narrativa." Sem mecanismo e sem ator. Substituído por
e3(contratação por definição de restrição) ee3.2.1(auditoria narrativa terceirizada), que têm ambos. - "Mudanças no mercado de trabalho criativo." Descartado inteiro. O que sobrou dele está na tabela "quem perde" da seção 5.2, com nome e efeito.
- "A IA democratiza a criação de histórias." Descartado: é slogan, não efeito. O que a evidência sustenta é o oposto em um ponto específico —
e2.2.1, a barreira de entrada subindo para o estreante justamente onde o custo de produzir caiu.
12.2 O que o briefing não cobriu, assumido por mim
O bloco briefing: veio completo nos campos da entrevista (§0), então não houve rebaixamento geral de confiança. O que ele não cobriu e eu assumi, declarado aqui como manda a skill:
- Profundidade de derivação por ramo. Assumi 3 a 6 efeitos de 1ª ordem por raiz (saíram 4 a 5), 1 a 3 filhos e 1 a 2 netos — o volume que a skill recomenda.
- O que conta como "o que já é comum em produto de massa". O briefing dá a régua sem operá-la. Operei assim: se aparece em mais de 30% dos lançamentos comerciais e o uso não é contestado como novidade, é maduro. Foi por essa régua que a geração de imagem como asset saiu (≈60% das declarações da Steam) e a geração da história inteira ficou (menor fatia das declarações).
- Se "coautoria" inclui coautoria entre humanos mediada por máquina. Assumi que não: o mapa trata da coautoria humano-máquina. Escrita colaborativa entre pessoas com assistência de modelo ficou fora, e é um ramo inteiro que outra rodada pode abrir.
- Se literatura impressa entra. Assumi que sim, parcialmente — R4 é majoritariamente literária (Authors Guild, Jabuti, Commonwealth, Clarkesworld) porque é ali que o regime de declaração está mais avançado. Um mapa só de jogo teria R4 muito mais magra.
- O tratamento do vizinho tema 7 (NPCs e mundos vivos). Assumi a fronteira que o enunciado fixa: o personagem que age dentro do mundo é tema 7; aqui o objeto é a história como coisa gerada. Por isso
e6.2(arquitetura híbrida) aparece como efeito sobre o desenho da obra, e não como tese sobre agentes. - Moeda e mercado de referência para preço. Usei o que a fonte trazia (R$ 32,99 na Steam brasileira, US$ 10 do Authors Guild) sem converter, para não introduzir número que não está em fonte nenhuma.
12.3 Candidatos a disrupção-raiz examinados e a decisão sobre cada um
| Candidato | Decisão | Motivo, em uma linha |
|---|---|---|
| Engine de novela visual (Ren'Py, Monogatari) | recusado | maioria há uma década; 8.000+ obras só em Ren'Py |
| Ferramenta de diálogo ramificado (Twine, Inform 7, YarnSpinner, Arrow, dialogic) | recusado | madura; nada a romper |
| Gerador de mapa e worldbuilding (Fantasy-Map-Generator, chronicler) | recusado | maduro, e é objeto do tema 14 (design procedural) |
| "O modelo escreve melhor" | recusado | melhoria sustentadora: mesmo produto, mais barato |
| Geração de imagem e voz como asset | recusado | comum em produto de massa; ≈60% das declarações da Steam; é tema 12 |
| Tradução automática neural | recusado | madura desde ~2017; o que rompe é a sobreposição em execução (R3) |
| Copiloto de escrita | recusado | uso corrente; o mercado já vende o selo do contrário |
| Script-to-video (Sora 2, Veo 3.1, Pika, Luma) | recusado como raiz deste tema | é mídia, não narrativa: tema 12. Entra como pré-condição de R1 |
| Personagem persistente com memória (Character.AI, Inworld) | recusado como raiz deste tema | é o personagem que age: tema 7. Entra em e10 |
| Obra inteira a partir de intenção curta | R1 | rompe a unidade de produção e o orçamento como filtro editorial |
| Obra instanciada por leitor | R2 | rompe a identidade numérica da obra |
| Tradução sobreposta em execução | R3 | rompe o controle da obra sobre a língua em que é lida |
| Autoria como declaração auditável | R4 | rompe a suposição de que autoria é constatável na obra |
12.4 Fontes que não abriram, e o que eu teria citado delas
Registro porque a ausência delas explica ausências no texto — e porque a tentação de citá-las assim mesmo foi real.
| Fonte | Erro | O que eu teria citado |
|---|---|---|
| Hilary Mason e Eleanor Todd, "The State of AI-Native Games" (Medium) | 403 | "liberdade conversacional não é liberdade narrativa"; custo de inferência por sessão; a resenha da Steam dizendo que só duas decisões afetam o desfecho |
| GDC — página da sessão "The State of AI-Native Games" | 403 | o resumo oficial da sessão e a lista de jogos analisados |
| Nimdzi 100 — página de mercado | 403 | tamanho do mercado de serviços linguísticos em 2026 e a frase sobre verticais de videogame caindo no ranking por causa da localização por IA |
| SAG-AFTRA — página do Acordo de Mídia Interativa 2025 | 403 (duas URLs) | o texto contratual das cláusulas de réplica digital; usei o conteúdo confirmado em busca, e mantive no texto só o que apareceu de forma consistente em mais de um resultado — o que ainda é uma fragilidade, declarada aqui |
| Regulamento do 68º Prêmio Jabuti (PDF da CBL) | abriu, mas ilegível | a cláusula literal sobre IA em "tarefas autorais"; usei a formulação como reportada, sem aspas de citação direta |
| ScienceDirect — Cognition, informação contextual de IA e julgamento estético | 403 | efeito quantificado da revelação de autoria de IA sobre apreciação estética; substituído pelo estudo do JCOM via phys.org, que mede credibilidade e não fruição — substituição imperfeita, declarada |
| ACM DL — "AI in Webtoon Creation" (CHI 2026) | não tentado após o padrão de 403 do domínio | percepções de quadrinistas sobre IA; substituído pela pesquisa da KOCCA via Korea Times |
12.5 Buscas que não deram em nada
- Números de uso do MangoBox. Buscas por usuários, obras criadas, preço e financiamento não retornaram nenhum dado. A página do itch.io do projeto e o site oficial não publicam métrica. Registro como "sem número encontrado", em vez de estimar.
- Instalações ou downloads do LunaTranslator. Nenhum número público encontrado. É o caso mais incômodo do mapa: uma raiz inteira ancorada num software cuja escala de uso eu não sei medir.
- Receita do segmento de "jogo nativo de IA". A survey de 53 sistemas não reporta receita, e as estimativas de mercado que aparecem em busca vêm de agregadores sem metodologia declarada — não usei nenhuma.
- Parcela de obras literárias publicadas com coautoria declarada. A Amazon distingue "AI-generated" de "AI-assisted" e exige declaração da primeira, mas não publica a contagem. Nenhum número confiável.
- Ficção interativa brasileira com IA. Buscas em português retornaram quase só páginas promocionais de plataformas de roleplay (jenova.ai e similares), sem dado primário. Não há, no que encontrei, levantamento sobre produção brasileira de ficção interativa generativa — o que é, por si, uma constatação: o recorte brasileiro deste mapa está apoiado em jogo (Abragames) e em dublagem (Câmara), não em ficção.
- Uso de IA generativa em roteiro de jogo especificamente. Todas as fontes de adoção medem "IA" de forma agregada ou por asset visual. O dado mais próximo é a quebra do Next Fest (escrita e diálogo entre as menores fatias), que é uma medida de declaração, não de uso.
- Prêmio literário que tenha criado categoria separada para obra coautorada. Não encontrei nenhum. Os que encontrei proíbem (Jabuti, IFComp, Ideal Clube, Caminhos da Palavra). Isso é evidência contra
e18.2, e está anotado: o efeito ficou com sinal médio e confiança média justamente por isso.
12.6 Saída do verificador
Comando executado:
python3 /Volumes/Extra/cosmos/ufpe/Aulas/TendenciasMidiaInteracao/26_2/skill-professor/futurizacao-giordano/references/verificar.py /Volumes/Extra/cosmos/ufpe/Aulas/TendenciasMidiaInteracao/26_2/skill-professor/rodadas/giordano-h2041/08-narrativa-gerativa-e-coautoria/tendencia-narrativa-gerativa-e-coautoria.md --links
Saída, na íntegra:
frontmatter: 18/18 campos
títulos literais: 12/12
raízes: 4 (frontmatter diz 4)
efeitos ordem 1: 18 (frontmatter diz 18)
efeitos ordem 2: 37 (frontmatter diz 37)
efeitos ordem 3: 21 (frontmatter diz 21)
prazo > horizonte (2041) em ordens 1-2: 0
prazo > horizonte em ordem 3 (permitido, mas declare): 2 [('e1.1.1', 2042), ('e12.1.1', 2043)]
confiança ordem 1: alta 9 · media 6 · baixa 3
confiança ordem 2: alta 1 · media 28 · baixa 8
confiança ordem 3: alta 0 · media 0 · baixa 21
links da seção 11: 24/24 respondem (frontmatter diz fontes: 24)
RESULTADO: ok
Leitura da saída, item a item.
- Frontmatter 18/18 e títulos 12/12 — o documento está no formato da disciplina, sem desvio.
- Raízes 4, ordem 1 com 18, ordem 2 com 37, ordem 3 com 21 — as contagens do frontmatter batem com as reais. Na primeira execução o verificador acusou 21 efeitos de 3ª ordem contra 20 declarados: corrigi o frontmatter, não o texto, como a skill manda, e a linha de calibração da seção 7.8 foi ajustada junto.
- Prazo > horizonte em ordens 1-2: zero. Nenhum efeito de 1ª ou 2ª ordem escapa de 2041.
- Prazo > horizonte em ordem 3: dois —
e1.1.1(2042, o ensino de escrita para jogos reabsorvido pela direção) ee12.1.1(2043, a indústria de localização descobrindo não ter quem revise). Ficam declarados: os dois estão fora da janela do mapa, os dois tiveram o prazo empurrado para lá pela bateria da seção 7 (registro em 7.8), e a prosa da seção 5.1 diz isso nos dois pontos. - Calibração — 9/6/3 na primeira ordem, 1/28/8 na segunda, 0/0/21 na terceira. A confiança cai com a ordem, como deve. A única alta na 2ª ordem é
e6.2(arquitetura híbrida), e está justificada em 5.1 por três medidas independentes. - Links: 24/24 respondem, e o número bate com
fontes: 24no frontmatter. - RESULTADO: ok.