Tendências em Mídia e Interação

Futuros · tema 8 · futurizacao-giordano · horizonte 2041 (15 anos)

Narrativa gerativa e coautoria

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1. Resumo

O barato aqui não é escrever: é instanciar a obra inteira — elenco, cenas, arte, fala — a partir de uma intenção curta, e instanciá-la diferente para cada leitor. É isso que rompe, e não "a IA escreve melhor", que é melhoria sustentadora e foi recusada como raiz. O presente é mais modesto que o discurso e a assimetria é o dado mais útil do mapa: dos 53.597 lançamentos da Steam entre meados de 2023 e meados de 2026, a fatia com IA declarada subiu de 10,9% (2024) para 30,8% (2026), mas o que se declara é sobretudo imagem (cerca de 60% das declarações no Next Fest de junho de 2026) — escrita e diálogo são a menor fatia, e localização é a única categoria em que declarar IA anda junto com vender (18% entre os jogos bem-sucedidos contra 6% entre os malsucedidos). Ou seja: a geração já ganhou a tradução e ainda não ganhou a história. Há motivo técnico medido: o melhor modelo do ConStory-Bench comete 0,113 erro de consistência a cada 10 mil palavras em histórias de 8 a 10 mil — cerca de um erro por obra curta — e o NarrativeWorldBench mostra 21 modelos de fronteira empacados entre 0,78 e 0,81 de Plot-Beat F1, com queda de 0,20 quando o horizonte vai a 200 episódios. Duas retroações seguram o mapa e as duas já são mensuráveis: a recusa do público ao rótulo (boicote de assinatura na Naver Webtoon; 52% dos profissionais de jogos dizendo em 2026 que a IA generativa faz mal à indústria, contra 30% em 2025 — 63% entre quem faz design e narrativa) e o colapso da verificação de autoria, que o caso Jamir Nazir no Commonwealth Short Story Prize expôs em 2026: detector dizendo 100% de máquina, fundação operando por princípio de confiança, e ninguém capaz de decidir. Até 2041 o desenho provável não é a obra viva: é o híbrido — regra no volante, modelo na superfície — somado a um regime de declaração que vale como fato porque não há como verificá-lo.

2. O tema

O objeto. A história como coisa gerada. Não o personagem que age dentro do mundo (tema 7), não o vídeo como mídia (tema 12), não a regra que produz espaço (tema 14): o artefato narrativo — a novela visual, o quadrinho, o conto, o roteiro — produzido inteiro a partir de uma intenção curta, e a coautoria humano-máquina como modo normal de escrever.

Onde encosta em mídia e interação. Em três lugares ao mesmo tempo, e é a simultaneidade que faz o tema. Primeiro, na produção: o pipeline de ofícios (roteiro → arte → voz → montagem) deixa de ser a única forma de chegar à obra. Segundo, na execução: se a obra se instancia na hora, ela deixa de ser uma cópia distribuída e passa a ser um serviço rodando — com custo por sessão, política de privacidade e moderação. Terceiro, na recepção: crítica, prêmio, currículo escolar e conversa de mesa de bar pressupõem que duas pessoas leram a mesma coisa. Se não leram, a instituição inteira que se apoia nessa suposição fica sem chão.

Por que merece mapa de futuro, e não levantamento de estado da arte. Porque o estado da arte é enganoso nos dois sentidos. Para baixo: as ferramentas maduras (Ren'Py, Twine, Inform) fazem tudo o que sempre fizeram e não explicam nada do que está mudando. Para cima: as demos de "prompt vira jogo" prometem um objeto que os benchmarks mostram não existir ainda em extensão útil. O que interessa está no meio e é causal, não descritivo: quais consequências se seguem de o custo de contar cair perto de zero, dado que a coerência de longo alcance ainda não caiu de preço junto. Um levantamento responderia "o que existe". Uma roda responde "o que se quebra quando isso existir", e é essa a pergunta que quem projeta mídia precisa responder antes de 2041, porque as decisões que ela condiciona — formato de contrato, desenho de curadoria, arquitetura de produto, política pública de língua — se tomam com anos de antecedência.

Premissas assumidas nesta rodada (do bloco briefing:, §0 da skill, sem entrevista ao vivo): horizonte 2041; público de quem projeta mídia e interação; recorte global com nota sobre o Brasil; descartado de saída o que já é comum em produto de massa (a régua da disciplina); nenhuma disrupção suspeita dada — foi para descobrir; viés neutro; ideias óbvias a excluir são as que serviriam a qualquer tema; e o falseador declarado pelo autor: evidência de que a adoção já passou da maioria inicial (Rogers), ou de que a tecnologia só melhora o que existe sem romper nada. Esse falseador virou critério no §6. O briefing veio completo, então não há rebaixamento por ausência de entrevista; o que ele não cobriu está declarado na seção 12.2.

3. Onde isso está hoje

Âncora feita com acesso à web em 12/09/2026. Vinte e quatro fontes abertas e lidas; a lista está na seção 11, e as buscas que não deram em nada, na 12.4.

3.1 O que já existe e funciona

A geração do artefato inteiro, em escala pequena. mangobox.ai é um fazedor de novela visual no navegador que se descreve como "uma plataforma para criar e compartilhar histórias interativas": a pessoa escreve o prompt com personagens, ambiente e enredo, manda gerar, e conversa. Não publica número de usuários, de obras nem de preço — procurei e não achei; a página "about" é uma frase. Registre-se o que isso significa: a categoria existe como produto e ainda não existe como mercado mensurável.

A obra que se instancia diferente para cada jogador, em produto comercial. Whispers from the Star, da Anuttacon (estúdio do fundador da miHoYo), saiu em 14/08/2025, custa R$ 32,99 na Steam e tinha 1.659 resenhas com 80% de positivas na leitura de 12/09/2026. A página declara "conversas e performances totalmente dubladas, movidas a IA, criadas em colaboração com um ator" e avisa que, "dada a natureza aberta da interação", o diálogo "pode envolver linguagem forte, temas sensíveis ou cenários emocionalmente carregados, dependendo de como o jogador interage com o sistema". Duas informações inteiras estão nesse aviso: a obra não pode ser classificada por amostra, e o autor sabe disso. O jogo limita a sessão a 40–60 minutos por dia — um limite que não é estético.

A camada de tradução sobreposta. LunaTranslator (GPLv3) extrai o texto do jogo por hook de memória — "compatível com quase todas as novelas visuais, populares e de nicho" —, por OCR embutido, ou por hook de emuladores de NS/PSP/PSV/PS2, e traduz por "quase todos os motores de tradução, incluindo tradução por modelo de linguagem grande e tradução offline". Em alguns jogos, embute a tradução de volta na tela. É software pequeno em tamanho e enorme em consequência: obra em japonês lida em português sem que ninguém tenha traduzido, sem licença e sem distribuidor.

A geração ganhando a localização antes da história. No estudo de Sulka Haro sobre 53.597 lançamentos da Steam de meados de 2023 a meados de 2026: jogos com IA declarada foram 10,9% dos lançamentos em 2024, 19,9% em 2025 e 30,8% em 2026; os lançamentos com a marca cresceram "de 13 por mês para cerca de 530" e respondem por "60 a 90% de todo o crescimento na contagem mensal de lançamentos da Steam". Mas na receita a curva é outra: de 10 a 27% das vendas estimadas, contra 3 a 6% em 2024. E o detalhe que mais importa para este tema está na quebra por tipo: entre os jogos malsucedidos, a IA declarada é visual em 72%, voz em 8% e localização em 6%; entre os bem-sucedidos, voz sobe para 24% e localização para 18%. Quem vende usa a máquina para atravessar a língua, não para escrever a história.

O regime de declaração, já instalado e já divergente entre si. A Valve reescreveu as regras em 16/01/2026: ferramenta de fluxo de trabalho (assistente de código) não precisa ser declarada; "IA para gerar conteúdo para o jogo" e "conteúdo de IA gerado durante o jogo" precisam — a segunda caixa é o reconhecimento formal de que a obra gerada em execução é uma classe de produto. O itch.io tem o campo "Generative AI Disclosure" com quatro subcategorias (Graphics, Sound, Text & Dialog, Code), obrigatório para quem vende assets e apenas encorajado para jogos, com perda de indexação como sanção (post de 20/11/2024). A IFComp 2026 proíbe: "todo o conteúdo voltado ao jogador precisa ser inteiramente criado por humanos, incluindo arte de capa, prosa e todos os assets do jogo", permitindo IA apenas para "assistência ao desenvolvimento, como edição, depuração, suporte de acessibilidade, pesquisa, assistência limitada de tradução ou programação". O Artigo 50 do AI Act europeu está em vigor desde 02/08/2026, exigindo que a saída de sistema generativo seja "marcada em formato legível por máquina e detectável como gerada por IA", com prazo até 02/12/2026 para sistemas já implantados — e com uma isenção que vai importar muito neste mapa: quando o conteúdo "faz parte de uma obra ou programa evidentemente artístico, criativo, satírico, ficcional ou análogo", a obrigação de divulgação é reduzida a informar de modo "que não atrapalhe a exibição ou a fruição da obra". Na Coreia, o AI Basic Act obriga a rotular, admite marca d'água não visível e legível por máquina para webtoon e animação, e abriu um ano de carência com orientação em vez de multa.

O selo inverso, como produto pago. O Authors Guild abriu ao público em 02/03/2026 a certificação "Human Authored": US$ 10 por título para não sócios, gratuito para sócios, com verificação de identidade por terceiro, limite de 10 títulos por ano e por autor, e um critério explícito — o texto tem de ser humano salvo uso de minimis (corretor ortográfico), sendo permitido usar IA para sumário, índice, pesquisa, brainstorming e esboço de estrutura. O Prêmio Jabuti, na 68ª edição (inscrições de 31/03 a 19/05/2026), não aceita obras que usaram IA "em tarefas autorais", com exceção de quando a IA é o objeto de análise, estudo ou crítica.

A base instalada que a geração vai absorver ou contornar. Ren'Py está na versão 8.5.3 ("We Can Go to the Moon", 15/05/2026) e diz ter sido usado em "mais de 8.000 novelas visuais, jogos e outras obras". Nenhuma menção a IA na página do projeto. Twine, Inform 7, YarnSpinner e o resto da linhagem seguem exatamente onde estavam — o que é, por si, um dado: a ferramenta madura não está se transformando; está sendo contornada por fora.

3.2 O que existe e ainda não funciona

A consistência em extensão de obra. O ConStory-Bench (leaderboard atualizado em 05/03/2026, arXiv 2603.05890) mede geração de histórias de 8 a 10 mil palavras com uma taxonomia de cinco categorias e 19 subtipos de erro. O melhor colocado, GPT-5-Reasoning, fica em 0,113 erro de consistência por 10 mil palavras — aproximadamente um erro por obra curta —, e os erros se concentram em "Consistência factual e de detalhe" e "Linha do tempo e lógica de enredo": rastrear entidade, manter fato e raciocinar sobre tempo. Não é problema de estilo; é de contabilidade.

A consistência quando o mundo muda embaixo da história. O WSE-bench (arXiv 2608.15654, 16/08/2026, Chen et al.) mede cobertura de geração, consistência e riqueza em simulações de mundo aberto e encontra algo que desmonta a solução óbvia: consistência e riqueza não formam um trade-off suave (a fronteira de Pareto é não-côncava), escala de modelo melhora a geração sustentada mas "não melhora uniformemente a coerência", e acrescentar restrição estrutural enriquece a narrativa encurtando-a. O NarrativeWorldBench, de nove métricas, mostra 21 modelos de fronteira empacados entre 0,78 e 0,81 de Plot-Beat F1, com queda de 0,20 quando o horizonte vai a 200 episódios.

A variedade, que piora com o alinhamento. O paper "Narrative Flattening" (arXiv 2605.27878, 27/05/2026, revisto em 07/09/2026; Li, Zhu, Wu, Bao e Evans) acompanha quatro checkpoints do OLMo 32B — Base, SFT, DPO e RLVR — contra três fontes pareadas (StoryStar, TMAS e ficção do The New Yorker) e mede três dimensões: movimento temático, prevalência afetiva e diversidade linguística. O pós-treino comprime as três: "as transições temáticas ficam mais uniformes, as emoções de alta intensidade cedem à neutralidade, e a diversidade estilística entre histórias encolhe". A maior perda é justamente contra a ficção literária profissional, e os modelos pós-treinados convergem entre domínios — a saída fica indiferente ao material de origem. É o contrário do que a promessa de "cada leitor, uma história" pede.

A autoria como espaço a explorar, não como texto a produzir. O Elsewise (arXiv 2601.15295, 10/09/2026; Wang, Chung, Roemmele, Sun, Wang, Almeda, Halperin, Lu e Kreminski) atacou o problema por outro lado: visualizar o espaço de possibilidades para que o autor entenda o que a obra ramificada pode virar. Que o problema de ferramenta em 2026 seja "o autor não consegue ver o que o sistema vai fazer" diz onde o gargalo está — e não é na geração de texto.

A economia do jogo generativo. A survey "AI-Native Games: A Survey and Roadmap" (arXiv 2607.00527v2, 03/07/2026; Xu, Meng, Xu, Verbrugge, Lucas e Zhao) analisou 53 jogos e protótipos públicos de um universo candidato de 98, com o critério de que o sistema é nativo de IA se, retirando a IA, "a forma central de jogo colapsaria ou ficaria fundamentalmente diferente". Aventura narrativa é 45,3% (n=24) do conjunto; narrativa generativa / mestre de jogo é 26,4% das mecânicas. E a lista de desafios abertos é a agenda deste mapa: geração controlável limitada por regra, instabilidade de memória, inovação de mecânica além de gerar conteúdo, limitação de modalidade (domínio do texto), latência e economia de inferência, dependência de modelo comprometendo reprodutibilidade, e moderação em tempo de execução.

A detecção de autoria. Não funciona e o campo sabe. Em 2026, "The Serpent in the Grove", de Jamir Nazir, venceu o Commonwealth Short Story Prize na região do Caribe e saiu na Granta; capturas do detector Pangram alegando 100% de texto gerado circularam, a diretora-geral da Commonwealth Foundation, Razmi Farook, defendeu o processo dizendo que usar checadores de IA em submissão não publicada "levantaria preocupações significativas quanto a consentimento e propriedade artística", e que a fundação opera por "princípio de confiança"; a editora Sigrid Rausing chegou a consultar o Claude, que respondeu que o conto "quase certamente não foi produzido sem auxílio humano" — uma frase que não decide nada. Nazir não respondeu ao New York Times nem ao Guardian. Do outro lado da mesma dificuldade, Neil Clarke, da Clarkesworld, escreveu em agosto de 2025 que o padrão mudou do texto de robô fácil de pegar para a submissão híbrida, que ele monitora por padrão e revisa à mão, e que "a tecnologia nunca deve ter a última palavra, e não terá na Clarkesworld".

3.3 Quem constrói

AtorO que fazOnde entra neste mapa
Anuttacon (fundador da miHoYo)Whispers from the Star: diálogo gerado em tempo real, ator humano na performanceúnico caso comercial com número público de obra que se instancia por jogador
MangoBoxprompt → novela visual jogável no navegadora geração do artefato inteiro como produto de consumidor
HIllya51 / comunidade LunaTranslatorhook + OCR + LLM: tradução sobreposta, GPLv3a camada que atravessa a obra sem passar pelo autor
Valve, itch.iocampo de declaração, sanção por indexaçãoquem define, na prática, o que "usar IA" significa
Comissão Europeia (AI Office), governo coreanoArt. 50 e AI Basic Act: marcação legível por máquinaquem transforma declaração em obrigação, com isenção para obra artística
Authors Guild, CBL/Jabuti, IFCompo selo inverso e a proibiçãoquem organiza o mercado do "humano"
Academia (arXiv cs.CL/HCI, ACM)ConStory-Bench, WSE-bench, Elsewise, Narrative Flatteningquem mede o teto e o custo escondido
Ren'Py, Twine, Inform, YarnSpinnera base instalada de ficção interativao maduro que está sendo contornado, não substituído

3.4 Os números da adoção hoje

4. As disrupções-raiz

Antes das quatro que entram, o que foi recusado — porque a recusa é metade do critério.

Candidato recusado como raiz: engine de novela visual e diálogo ramificado (Ren'Py 8.5.3, Twine, Inform 7, YarnSpinner). Adoção em maioria há mais de uma década; 8.000+ obras só em Ren'Py. Tratado como contexto na seção 3.

Candidato recusado como raiz: "o modelo escreve texto melhor". Não rompe prática, ofício nem modelo de negócio: faz o mesmo, mais barato. É melhoria sustentadora no sentido de Christensen, e entra neste mapa como efeito, não como causa.

Candidato recusado como raiz: geração de imagem e de voz como asset de produção. Além de ser objeto do tema 12, já é comum em produto de massa: ~60% das declarações de IA na Steam são visuais, e a régua da disciplina descarta o que dá para fazer com o que já é corrente.

Candidato recusado como raiz: tradução automática neural. Madura desde ~2017 e adotada na indústria de localização como pós-edição. O que rompe não é traduzir por máquina: é a tradução sobreposta por terceiro, em tempo de execução, sem passar pelo autor — que é a raiz R3.

Candidato recusado como raiz: copiloto de escrita. O uso já é tão corrente que o mercado vende o selo do contrário (Human Authored, "milhares de livros" certificados desde 2025). Uso corrente não é ruptura por vir; é o presente.

R1 — A obra inteira instanciada a partir de uma intenção curta

O que rompe. A unidade de produção. A obra narrativa audiovisual sempre foi montada por um pipeline de ofícios sequenciados — roteiro, arte, voz, programação, montagem — e é esse sequenciamento que sustenta o orçamento como instrumento editorial, o portfólio como prova de competência, o documento de design como contrato interno e a fronteira entre protótipo e obra. Quando a intenção curta instancia o artefato inteiro, o custo marginal deixa de filtrar o que se produz, e o filtro migra da produção para a atenção.

Por que agora, e não há cinco anos. Porque o ciclo texto → imagem → som → vídeo fechou num pipeline só e o custo de inferência caiu o bastante para a geração multimodal caber num produto de navegador. Em 2021 era possível gerar texto de história (AI Dungeon, NovelAI); não era possível gerar, do mesmo prompt, o elenco, a arte de cena e a fala, com continuidade entre eles.

Onde está na difusão. Produto de nicho, entrando em adoção precoce. MangoBox roda e é consumível; 30,8% dos lançamentos da Steam declaram IA, mas texto e diálogo são a menor parcela das declarações e a receita fica em 10–27%.

O que ainda falta acontecer. (a) Consistência em extensão de obra — o teto medido é ~1 erro por obra curta e cai com o horizonte; (b) controle autoral sobre o que foi gerado, que é exatamente o problema que o Elsewise ataca em 2026; (c) um caminho de distribuição que não seja engolido pelo próprio volume (60–90% do crescimento de lançamentos da Steam já é isto); (d) uma resposta de mercado ao rótulo, hoje negativa.

Quem bloqueia, e com que efeito. As lojas, que já exercem o poder de definir o que conta como uso (a reescrita da Valve em 16/01/2026 isentou ferramenta de fluxo e manteve conteúdo consumido pelo jogador); e o próprio ofício, com 63% de quem faz design e narrativa dizendo que a tecnologia faz mal — número que vira custo de contratação, de imprensa e de comunidade.

R2 — A obra que se instancia diferente para cada leitor

O que rompe. A identidade numérica da obra. Se cada execução produz um objeto distinto, deixa de existir "o livro" sobre o qual duas pessoas conversam, "a cena" que a crítica cita, "o trecho" que a perícia compara numa disputa de plágio, e "a amostra" pela qual se classifica indicativamente. Rompe também a distribuição: a obra deixa de ser cópia entregue e vira serviço rodando, com custo por sessão, política de privacidade e moderação em execução.

Por que agora. Porque a inferência ficou barata o bastante para rodar durante o jogo — e porque a instituição reconheceu a classe: a Valve criou em 16/01/2026 a declaração específica de "conteúdo de IA gerado durante o jogo", separada do conteúdo gerado na produção. Quando a loja cria um campo, o objeto existe comercialmente.

Onde está na difusão. Produto de nicho. Um caso comercial com número público (Whispers from the Star: 1.659 resenhas) e 53 sistemas nativos de IA catalogados na survey de 2026, dos quais 26,4% fazem narrativa generativa ou mestre de jogo.

O que ainda falta acontecer. (a) Memória estável — a survey nomeia instabilidade de memória como desafio central; (b) economia por sessão que feche (o limite de 40–60 minutos diários do Whispers é a confissão); (c) um regime de classificação indicativa aplicável ao que ainda não existe quando o produto é avaliado; (d) a demonstração de que liberdade conversacional produz liberdade narrativa — que os benchmarks de 2026 não sustentam.

Quem bloqueia, e com que efeito. O custo de inferência e a equipe de moderação, que empurram o desenho para o híbrido; e o regulador de conteúdo, porque nenhum sistema de classificação por amostra funciona sobre obra que só existe depois que o jogador fala — o aviso da Anuttacon na loja é a admissão pública disso.

R3 — A camada de tradução e adaptação que roda por cima da obra

O que rompe. O controle da obra sobre a língua em que é lida, e a localização como etapa contratada. Com hook de memória ou OCR mais LLM, a obra passa a ter leitores em línguas que ninguém licenciou, com qualidade que o autor não viu, não aprovou e não pode corrigir — e o distribuidor territorial perde o instrumento que sustentava a exclusividade. Rompe também o cálculo de mercado: "não vale a pena lançar em PT-BR" deixa de ser uma decisão que retém alguém.

Por que agora. Porque o custo de traduzir um turno de diálogo com qualidade aceitável caiu para perto de zero e o OCR em tempo real roda no dispositivo. A tradução automática existe há uma década; o que é novo é traduzir na tela, durante o consumo, por iniciativa do leitor.

Onde está na difusão. Assimétrica, e é esse o achado: produto de nicho do lado do leitor (LunaTranslator é comunidade, não plataforma) e adoção precoce indo para maioria do lado da indústria — localização é a única categoria em que declarar IA correlaciona com vender (18% contra 6%).

O que ainda falta acontecer. (a) Voz sincronizada em tempo real, que esbarra em contrato e não em técnica; (b) resolução jurídica sobre sobreposição como obra derivada não autorizada; (c) qualidade em registro, gíria e referência cultural — o ponto em que a máquina ainda perde por margem larga.

Quem bloqueia, e com que efeito. Os detentores de direito e distribuidores regionais, para quem a língua é a cerca do território; e, no Brasil, as associações de dublagem — o Movimento Dublagem Viva, o Clube da Voz e a Interartis foram à Câmara pedir a aprovação do PL 2338/23 com remuneração por direito autoral quando a obra alimenta IA, e do PL 1376/22, que exige dublagem e legendagem por empresas e profissionais sediados no Brasil. Se aprovado, o efeito é direto: a sobreposição de texto continua livre, e a voz fica presa.

R4 — A autoria como declaração auditável, e não como fato sobre o processo

O que rompe. A suposição de que "quem escreveu" é uma propriedade da obra, legível nela. Quando o texto não carrega a marca do processo e a detecção não funciona, a autoria deixa de ser constatável e passa a ser declarada — e tudo o que se apoiava nela (prêmio, seleção editorial, crédito, currículo, direito autoral, avaliação escolar) passa a se apoiar num regime de declaração com fraude, verificação, sanção e mercado de certificação. É uma ruptura institucional, não técnica, e é a mais irreversível das quatro.

Por que agora. Por dois motivos simultâneos que não existiam há cinco anos. Primeiro, o volume tornou a triagem impossível: a Clarkesworld recebeu 500 submissões geradas contra 700 legítimas em fevereiro de 2023, quando antes o spam não passava de 25 por mês, e o padrão migrou para o híbrido, que nenhum filtro separa. Segundo, o regulador entrou: o Artigo 50 do AI Act vale desde 02/08/2026, o AI Basic Act coreano obriga marca d'água legível por máquina, e plataformas (Valve, itch.io) e instituições (IFComp 2026, Jabuti 68ª, Authors Guild) já operam regimes próprios — incompatíveis entre si.

Onde está na difusão. Adoção precoce indo para maioria, e é a única das quatro raízes sobre a qual isso se pode dizer. A obrigação já existe em duas jurisdições e em duas lojas.

O que ainda falta acontecer. (a) Um detector que funcione — não existe, e o caso Nazir mostra que a instituição sabe que não existe; (b) jurisprudência sobre o que conta como "tarefa autoral" (o Jabuti usa a expressão sem defini-la operacionalmente); (c) um padrão de proveniência embutido no arquivo, que o Código de Conduta em elaboração no AI Office pode vir a fixar; (d) a decisão sobre a isenção de obra artística do Art. 50 — que é a brecha por onde a ficção inteira pode sair da marcação visível.

Quem bloqueia, e com que efeito. As próprias instituições certificadoras, cujo incentivo é manter vendável uma distinção que não conseguem verificar (US$ 10 por título, limite de 10 por ano, verificação de identidade — não de autoria); e os autores estabelecidos, para quem o regime de declaração é barreira de entrada útil contra a concorrência de volume.

5. A roda dos futuros

O bloco abaixo é o estado depois da bateria da seção 7 — dois efeitos foram removidos e seis rebaixados ali, e o registro antes→depois está na 7.8. A prosa que segue o bloco carrega o que o YAML não cabe: os mecanismos, as classes de referência de cada prazo, os cruzamentos, quem perde e a cobertura STEEP.

roda:
  - disrupcao: A obra inteira instanciada a partir de uma intenção curta
    efeitos:
      - id: e1
        ordem: 1
        efeito: O protótipo jogável deixa de ser etapa e vira a unidade de pitch, substituindo o documento de design na apresentação de projeto
        sinal: medio
        prazo: 2029
        confianca: media
        efeitos:
          - id: e1.1
            ordem: 2
            efeito: O documento de design perde a função de contrato interno e vira anotação sobre um build que já existe
            sinal: medio
            prazo: 2031
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e1.1.1
                ordem: 3
                efeito: O ensino de escrita para jogos perde o artefato que o tornava ensinável em separado e é reabsorvido pela direção de projeto
                sinal: fraco
                prazo: 2042
                confianca: baixa
      - id: e2
        ordem: 1
        efeito: O catálogo de obra narrativa cresce mais rápido que a atenção disponível e a descoberta substitui a produção como gargalo
        sinal: forte
        prazo: 2028
        confianca: alta
        efeitos:
          - id: e2.1
            ordem: 2
            efeito: A curadoria migra de quem seleciona para quem garante, e selo, lista curada e clube fechado passam a valer mais que a vitrine da loja
            sinal: medio
            prazo: 2031
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e2.1.1
                ordem: 3
                efeito: O selo de curadoria vira ativo negociável e aparece a captura por pagamento, repetindo o percurso da lista de mais vendidos
                sinal: fraco
                prazo: 2036
                confianca: baixa
          - id: e2.2
            ordem: 2
            efeito: Revistas e concursos de ficção fecham a submissão aberta e passam a operar por indicação, taxa ou janela curta
            sinal: medio
            prazo: 2030
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e2.2.1
                ordem: 3
                efeito: O acesso do autor estreante ao circuito passa a depender de rede social prévia, e a barreira de entrada sobe justamente onde o custo de produzir caiu
                sinal: fraco
                prazo: 2035
                confianca: baixa
          - id: e2.3
            ordem: 2
            efeito: O preço de obra narrativa curta cai abaixo do custo de atenção do comprador e a venda unitária cede lugar a assinatura e pacote
            sinal: medio
            prazo: 2032
            confianca: media
      - id: e3
        ordem: 1
        efeito: Escritores de jogo deixam de ser contratados por volume de texto e passam a ser contratados por definição de restrição, ou seja, pelo que o sistema não pode dizer
        sinal: medio
        prazo: 2031
        confianca: media
        efeitos:
          - id: e3.1
            ordem: 2
            efeito: O caderno de invariantes narrativos vira entregável contratado, separado do texto e versionado à parte
            sinal: fraco
            prazo: 2033
            confianca: baixa
          - id: e3.2
            ordem: 2
            efeito: O estúdio que não mantém invariantes escritos descobre a incoerência em produção, e o teste de narrativa vira custo recorrente em vez de etapa
            sinal: medio
            prazo: 2032
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e3.2.1
                ordem: 3
                efeito: Surge auditoria narrativa terceirizada como serviço, análoga ao teste de compatibilidade de hardware
                sinal: fraco
                prazo: 2036
                confianca: baixa
      - id: e4
        ordem: 1
        efeito: A recusa do público à obra declaradamente gerada vira custo de marketing mensurável e empurra estúdios a esconder o uso em vez de declará-lo
        sinal: forte
        prazo: 2028
        confianca: alta
        efeitos:
          - id: e4.1
            ordem: 2
            efeito: A não-declaração passa a ser risco regulatório, instalando conflito corrente entre o incentivo de mercado e a obrigação legal
            sinal: medio
            prazo: 2030
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e4.1.1
                ordem: 3
                efeito: A prova de autoria passa a ser produzida durante a escrita, por registro de processo assinado, em vez de atestada depois
                sinal: fraco
                prazo: 2034
                confianca: baixa
          - id: e4.2
            ordem: 2
            efeito: Formam-se dois mercados com preços distintos para a mesma história, a versão certificada humana e a versão gerada
            sinal: medio
            prazo: 2033
            confianca: media
      - id: e5
        ordem: 1
        efeito: A obra gerada passa a nascer em várias línguas ao mesmo tempo, sem original, e a língua de origem deixa de ser um fato sobre o texto
        sinal: fraco
        prazo: 2035
        confianca: media
        efeitos:
          - id: e5.1
            ordem: 2
            efeito: A expressão língua de origem deixa de descrever a obra e passa a descrever apenas o prompt e a pessoa que o escreveu
            sinal: fraco
            prazo: 2037
            confianca: baixa
          - id: e5.2
            ordem: 2
            efeito: Políticas culturais que financiam por língua ficam sem critério aplicável e migram para critério territorial de pessoa
            sinal: fraco
            prazo: 2038
            confianca: baixa
            efeitos:
              - id: e5.2.1
                ordem: 3
                efeito: Editais e prêmios brasileiros consolidam a exigência de vínculo territorial do autor e da edição, no modelo do ISBN e da ficha catalográfica emitidos no Brasil
                sinal: fraco
                prazo: 2040
                confianca: baixa

  - disrupcao: A obra que se instancia diferente para cada leitor
    efeitos:
      - id: e6
        ordem: 1
        efeito: A obra narrativa passa a ter custo marginal por sessão e o desenho econômico migra da venda unitária para o limite de uso
        sinal: forte
        prazo: 2028
        confianca: alta
        efeitos:
          - id: e6.1
            ordem: 2
            efeito: O limite diário de sessão entra no desenho narrativo como restrição estética, com capítulos dimensionados por orçamento de inferência
            sinal: medio
            prazo: 2030
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e6.1.1
                ordem: 3
                efeito: A obra longa gerada vira privilégio de assinatura cara e a obra curta gerada vira o formato popular
                sinal: fraco
                prazo: 2034
                confianca: baixa
          - id: e6.2
            ordem: 2
            efeito: Estúdios convergem para arquitetura híbrida, com máquina de estados no controle e modelo na superfície, e a geração total fica restrita a demonstração
            sinal: forte
            prazo: 2029
            confianca: alta
          - id: e6.3
            ordem: 2
            efeito: Assinatura e venda unitária passam a produzir desenhos narrativos opostos, um otimizando permanência e o outro otimizando encerramento
            sinal: medio
            prazo: 2031
            confianca: media
      - id: e7
        ordem: 1
        efeito: A crítica perde o objeto comum e passa a descrever o sistema em vez da obra, resenhando regras em vez de enredo
        sinal: fraco
        prazo: 2036
        confianca: baixa
        efeitos:
          - id: e7.1
            ordem: 2
            efeito: Resenhas passam a vir com trilha de execução anexada, com semente, versão do modelo e registro de escolhas, como condição para serem discutíveis
            sinal: fraco
            prazo: 2038
            confianca: baixa
            efeitos:
              - id: e7.1.1
                ordem: 3
                efeito: Semente e versão de modelo viram metadado obrigatório de preservação, e arquivar uma obra passa a exigir arquivar o modelo
                sinal: fraco
                prazo: 2040
                confianca: baixa
          - id: e7.2
            ordem: 2
            efeito: Comunidades de leitores fixam uma execução canônica por convenção social para poder conversar, recriando a cópia sem que ninguém a distribua
            sinal: fraco
            prazo: 2035
            confianca: baixa
      - id: e8
        ordem: 1
        efeito: A classificação indicativa deixa de poder ser feita por amostra da obra e passa a ser feita por auditoria do sistema mais moderação em tempo de execução
        sinal: medio
        prazo: 2031
        confianca: media
        efeitos:
          - id: e8.1
            ordem: 2
            efeito: A responsabilidade pelo conteúdo gerado em sessão migra do autor para o operador do serviço, como já ocorreu na moderação de plataforma
            sinal: medio
            prazo: 2033
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e8.1.1
                ordem: 3
                efeito: Obra narrativa generativa passa a ser tratada como serviço regulado e o autor individual sem operador é empurrado para fora do mercado
                sinal: fraco
                prazo: 2037
                confianca: baixa
          - id: e8.2
            ordem: 2
            efeito: Sem regime brasileiro para conteúdo gerado em execução, a classificação indicativa nacional passa a ser aplicada ao sistema e não à obra
            sinal: fraco
            prazo: 2034
            confianca: baixa
      - id: e9
        ordem: 1
        efeito: A liberdade conversacional se revela não equivalente à liberdade narrativa e o público desconta a promessa de história única
        sinal: forte
        prazo: 2029
        confianca: alta
        efeitos:
          - id: e9.1
            ordem: 2
            efeito: O argumento de venda migra de infinito para coerente e a métrica pública passa a ser consistência em vez de variedade
            sinal: medio
            prazo: 2032
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e9.1.1
                ordem: 3
                efeito: Benchmarks de consistência narrativa entram no material de marketing, como a taxa de quadros entrou no de gráficos
                sinal: fraco
                prazo: 2035
                confianca: baixa
          - id: e9.2
            ordem: 2
            efeito: Obras com ramificação escrita à mão voltam a ser vendidas como diferencial e o custo humano vira atributo declarado de produto
            sinal: medio
            prazo: 2033
            confianca: media
      - id: e10
        ordem: 1
        efeito: O personagem que lembra do leitor transforma texto de entretenimento em dado pessoal e a obra passa a ter política de privacidade
        sinal: medio
        prazo: 2030
        confianca: media
        efeitos:
          - id: e10.1
            ordem: 2
            efeito: Obras narrativas passam a ter direito ao esquecimento aplicável ao enredo, de modo que apagar o dado apaga a história vivida
            sinal: fraco
            prazo: 2033
            confianca: baixa
          - id: e10.2
            ordem: 2
            efeito: A conversa do leitor com a obra vira corpus de treino disputado e aparece cláusula de licença sobre o que o leitor disse
            sinal: medio
            prazo: 2032
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e10.2.1
                ordem: 3
                efeito: Surge um nicho de histórias que não aprendem, vendidas pela garantia de não reter nada do leitor
                sinal: fraco
                prazo: 2036
                confianca: baixa

  - disrupcao: A camada de tradução e adaptação sobreposta à obra em tempo de execução
    efeitos:
      - id: e11
        ordem: 1
        efeito: Obras passam a ser consumidas em línguas que ninguém licenciou e a decisão de não localizar deixa de reter leitor
        sinal: forte
        prazo: 2029
        confianca: alta
        efeitos:
          - id: e11.1
            ordem: 2
            efeito: O contrato de distribuição territorial perde o instrumento que o sustentava e migra de exclusividade de língua para exclusividade de serviço, como voz, suporte e comunidade
            sinal: medio
            prazo: 2032
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e11.1.1
                ordem: 3
                efeito: Selos de tradução literária no Brasil passam a competir com sobreposição gratuita e se reposicionam em edição impressa, aparato crítico e curadoria
                sinal: fraco
                prazo: 2036
                confianca: baixa
          - id: e11.2
            ordem: 2
            efeito: O autor perde o controle sobre a primeira impressão da obra em outra língua e o erro de tradução deixa de ter responsável identificável
            sinal: medio
            prazo: 2030
            confianca: media
          - id: e11.3
            ordem: 2
            efeito: Comunidades de fãs abandonam o patch de tradução e um ofício amador de trinta anos desaparece por obsolescência, não por proibição
            sinal: medio
            prazo: 2031
            confianca: media
      - id: e12
        ordem: 1
        efeito: A localização profissional se reorganiza em torno de revisão e adaptação cultural e o preço por palavra deixa de ser a unidade de cobrança
        sinal: medio
        prazo: 2030
        confianca: media
        efeitos:
          - id: e12.1
            ordem: 2
            efeito: O posto de tradutor júnior de jogos desaparece e com ele o caminho de formação do tradutor sênior
            sinal: medio
            prazo: 2032
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e12.1.1
                ordem: 3
                efeito: Uma década depois a indústria descobre não ter quem revise e o custo da revisão sobe acima do que era o da tradução
                sinal: fraco
                prazo: 2043
                confianca: baixa
          - id: e12.2
            ordem: 2
            efeito: Estúdios brasileiros passam a lançar em dez línguas no dia um e a barreira de idioma deixa de explicar o alcance limitado
            sinal: medio
            prazo: 2030
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e12.2.1
                ordem: 3
                efeito: O diferencial competitivo do jogo brasileiro desloca-se de acesso a mercado para especificidade cultural, e traduzir a referência vira o problema caro
                sinal: fraco
                prazo: 2035
                confianca: baixa
      - id: e13
        ordem: 1
        efeito: A voz se torna o ponto onde a tradução automática trava, porque a voz tem dono com contrato e o texto não tem
        sinal: forte
        prazo: 2029
        confianca: alta
        efeitos:
          - id: e13.1
            ordem: 2
            efeito: A obra passa a ter duas camadas jurídicas distintas, texto livremente sobreposto e voz licenciada, e o consumo traduzido fica legendado mesmo com síntese boa
            sinal: medio
            prazo: 2032
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e13.1.1
                ordem: 3
                efeito: A legenda sobreposta por terceiro vira a forma dominante de consumo transfronteiriço e a dublagem passa a produto premium regional
                sinal: fraco
                prazo: 2036
                confianca: baixa
          - id: e13.2
            ordem: 2
            efeito: Se o PL 2338 for aprovado com remuneração por uso em treino, o Brasil vira mercado onde a voz sintética custa mais que a legenda e estúdios globais deixam de dublar em português
            sinal: medio
            prazo: 2033
            confianca: media
      - id: e14
        ordem: 1
        efeito: A obra passa a ser escrita para ser traduzida por máquina, com recuo de sintaxe complexa, referência local e trocadilho
        sinal: medio
        prazo: 2032
        confianca: baixa
        efeitos:
          - id: e14.2
            ordem: 2
            efeito: Regionalismo e oralidade brasileira ficam economicamente penalizados na exportação e a escrita para mercado externo se aplaina
            sinal: medio
            prazo: 2034
            confianca: media

  - disrupcao: A autoria como declaração auditável em vez de fato sobre o processo
    efeitos:
      - id: e15
        ordem: 1
        efeito: A declaração de uso de IA vira campo obrigatório em loja, concurso e editora e declarar errado passa a custar mais que não usar
        sinal: forte
        prazo: 2028
        confianca: alta
        efeitos:
          - id: e15.1
            ordem: 2
            efeito: Instala-se a assimetria entre o que a loja pede, conteúdo consumido pelo jogador, e o que o regulador pede, marcação legível por máquina, e o mesmo produto carrega duas declarações incompatíveis
            sinal: medio
            prazo: 2030
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e15.1.1
                ordem: 3
                efeito: Consolida-se um padrão de proveniência embutido no arquivo e a declaração deixa de ser texto para virar metadado verificável
                sinal: fraco
                prazo: 2035
                confianca: baixa
          - id: e15.2
            ordem: 2
            efeito: A isenção de obra artística do Artigo 50 vira a porta pela qual a ficção escapa da marcação visível e ser arte passa a ser argumento jurídico de isenção
            sinal: medio
            prazo: 2031
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e15.2.1
                ordem: 3
                efeito: A fronteira entre ficção e informação vira objeto de litígio, porque é ela que decide qual obrigação se aplica
                sinal: fraco
                prazo: 2035
                confianca: baixa
      - id: e16
        ordem: 1
        efeito: O selo de autoria humana vira produto pago e provar que não usou máquina passa a custar dinheiro
        sinal: forte
        prazo: 2028
        confianca: alta
        efeitos:
          - id: e16.1
            ordem: 2
            efeito: O selo é comprável e não verificável, e a primeira fraude pública de certificação humana destrói o valor de sinal do selo
            sinal: medio
            prazo: 2032
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e16.1.1
                ordem: 3
                efeito: A certificação migra de atestado do autor para evidência de processo e escrever passa a ser uma atividade registrada
                sinal: fraco
                prazo: 2036
                confianca: baixa
          - id: e16.2
            ordem: 2
            efeito: Autores de países sem instituição certificadora ficam fora do regime e passam a ser presumidos gerados por quem seleciona
            sinal: medio
            prazo: 2033
            confianca: media
      - id: e17
        ordem: 1
        efeito: A detecção falha publicamente e a suspeita vira a condição normal de leitura, com obra humana acusada e obra gerada passando
        sinal: forte
        prazo: 2028
        confianca: alta
        efeitos:
          - id: e17.1
            ordem: 2
            efeito: Prêmios e revistas abandonam a detecção e migram para procedimento, com entrevista, defesa oral e escrita presenciada
            sinal: medio
            prazo: 2031
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e17.1.1
                ordem: 3
                efeito: A performance de autoria vira parte do valor da obra e o texto isolado perde poder de atestar quem o fez
                sinal: fraco
                prazo: 2037
                confianca: baixa
          - id: e17.2
            ordem: 2
            efeito: O ônus da prova se inverte para o autor sem nome feito e a acusação sem evidência vira instrumento de disputa de prêmio
            sinal: medio
            prazo: 2030
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e17.2.1
                ordem: 3
                efeito: O dano reputacional por falso positivo de detector aparece como categoria própria de litígio
                sinal: fraco
                prazo: 2034
                confianca: baixa
      - id: e18
        ordem: 1
        efeito: A coautoria com máquina deixa de ser vergonha declarável e vira gênero, com convenção própria de crédito
        sinal: fraco
        prazo: 2036
        confianca: baixa
        efeitos:
          - id: e18.1
            ordem: 2
            efeito: O crédito se fragmenta em papéis, quem definiu a intenção, quem curou, quem revisou e qual modelo, e a ficha técnica da obra literária passa a parecer a de um filme
            sinal: fraco
            prazo: 2038
            confianca: baixa
          - id: e18.2
            ordem: 2
            efeito: Concursos criam categoria separada para obra assumidamente coautorada e a separação, não a proibição, vira a norma
            sinal: medio
            prazo: 2034
            confianca: media
            efeitos:
              - id: e18.2.1
                ordem: 3
                efeito: A categoria separada ou se esvazia ou absorve a principal, e em qualquer dos dois casos a distinção deixa de ser feita
                sinal: fraco
                prazo: 2040
                confianca: baixa

5.1 Os mecanismos, ramo a ramo

R1 · e1 — o build substitui o documento. Porque a obra instanciada a partir de uma intenção curta faz o custo de mostrar cair abaixo do custo de descrever. Quando gerar o jogável custa menos que escrever o documento que o descreve, ninguém escreve o documento primeiro. e1.1 segue porque o documento perde a função para a qual existia — alinhar pessoas antes de haver artefato — e vira anotação sobre algo que já roda. e1.1.1, o ensino, segue porque o roteiro era o artefato destacável que permitia ensinar escrita separada da produção; sem ele, a disciplina não tem objeto próprio e é reabsorvida pela direção. Este é o único efeito de 3ª ordem do ramo cujo prazo, 2042, passa do horizonte do mapa — currículo universitário muda em ciclos de 8 a 10 anos, e o gatilho (e1.1) só se firma por volta de 2031. Fica declarado: está fora da janela de 2041, mas a cadeia causal já está escrita.

Classe de referência para e1 (2029): a passagem do design document para o vertical slice como peça de pitch em jogos AAA levou cerca de cinco anos depois que motores acessíveis (Unity 2010, Unreal gratuito 2015) tornaram o slice barato. Aqui a barateza já existe e a peça já é demonstrável, então três anos é plausível; foi por isso que a confiança caiu de alta para média na bateria — o precedente mostra que a substituição é parcial, não total: o documento sobreviveu ao slice.

R1 · e2 — o gargalo muda de lugar. Porque o volume de obra publicável cresce com o custo de produzi-la, enquanto a atenção não cresce. É o efeito mais bem ancorado de todo o mapa e o único de 1ª ordem com sinal forte e confiança alta em que a evidência é numérica e direta: os lançamentos com IA declarada respondem por 60 a 90% de todo o crescimento mensal de lançamentos da Steam, saindo de 13 por mês para ~530, sem que a receita acompanhe (10–27% das vendas). e2.1 segue porque quando a vitrine deixa de filtrar, quem filtra vira infraestrutura; e e2.1.1, a captura do selo, segue porque todo filtro escasso com demanda alta desenvolve mercado secundário — a classe de referência é a lista de mais vendidos e o pacote de resenhas pagas, ambos capturados poucos anos depois de virarem critério. e2.2 já tem caso: a Clarkesworld fechou submissões em 20/02/2023 diante de 500 geradas contra 700 legítimas no mês e, embora tenha reaberto com processo adaptado, Neil Clarke descreve em 2025 um padrão híbrido que o filtro não separa. e2.2.1 é a consequência perversa, e é o efeito deste mapa que mais merece atenção de quem forma gente: porque o circuito responde ao volume fechando a porta, e a porta fechada só se abre por relação prévia — quem estreia sem rede social paga a conta de uma tecnologia que deveria tê-lo ajudado a entrar.

R1 · e3 — a contratação muda de unidade. Porque quando o sistema produz texto em volume, o valor do escritor migra do que ele escreve para o que ele impede o sistema de escrever. O mecanismo é exatamente o que o ConStory-Bench mede: erros de "consistência factual e de detalhe" e de "linha do tempo e lógica de enredo" são violações de invariantes que alguém teria de ter escrito. e3.1 e e3.2 derivam disso e não de e3 apenas "mais adiante": mudam o ator (do escritor para o estúdio e o QA) e o mecanismo (de contratação para descoberta de defeito em produção). e3.2.1 repete um percurso conhecido: o teste de compatibilidade virou serviço terceirizado quando a matriz de hardware ficou grande demais para o estúdio cobrir sozinho — a matriz de execuções narrativas é maior.

Classe de referência para e3 (2031): a migração de "programador que escreve tudo" para "programador que define contratos e revisa" levou cerca de uma década na engenharia de software com bibliotecas de alto nível; com pressão econômica maior, cinco anos.

R1 · e4 — a retroação do ramo: o rótulo custa dinheiro. Porque o público penaliza o rótulo mais do que penalizaria o resultado, o que torna a declaração honesta economicamente inferior à omissão. Há três evidências independentes: o boicote de assinatura contra a obra gerada publicada pela Naver Webtoon; os 52% de profissionais de jogos dizendo que a IA generativa faz mal (2.300+ respondentes, contra 30% em 2025 e 18% em 2024; 63% em design e narrativa); e o estudo do JCOM (março de 2026, n=433) que encontra um "efeito de cruzamento verdade-falsidade" — o mesmo rótulo de IA derruba a credibilidade da informação correta e eleva a da falsa. O rótulo, portanto, não informa: reposiciona. e4.1 segue porque o incentivo de mercado passa a apontar na direção contrária da obrigação legal, e é onde este ramo colide com R4. e4.1.1 é a saída técnica desse conflito: se ninguém consegue provar ausência depois, prova-se presença durante. e4.2 é a saída de mercado: dois preços para a mesma história.

R1 · e5 — a obra sem original. Porque, gerando-se o artefato inteiro a partir da intenção, a instanciação em cada língua é simultânea e nenhuma delas é derivada da outra. Este efeito foi empurrado de 2033 para 2035 na bateria: exige que a geração multilíngue seja boa o bastante em registro literário, e a classe de referência (tradução automática neural, 2016 → uso corrente em localização por volta de 2022-2024, ~7 anos) sugere que a qualidade literária multilíngue simultânea leva mais, não menos. e5.2 e e5.2.1 tocam política pública: o critério de língua é a base de quase todo fomento cultural, e o substituto disponível é o territorial — o regulamento do Jabuti já exige ISBN e ficha catalográfica emitidos no Brasil, que é exatamente esse deslocamento em miniatura.

R2 · e6 — o custo por sessão. Porque a obra que se instancia na hora consome inferência a cada leitura, transformando um custo fixo de produção em custo variável de consumo. O sinal é forte e observável: Whispers from the Star limita a sessão a 40–60 minutos por dia. Não é escolha estética. e6.1 segue porque a restrição orçamentária de uma obra sempre acaba virando forma — o folhetim tinha tamanho de coluna de jornal, o episódio de TV tinha tamanho de bloco comercial. e6.2 é o efeito de 2ª ordem com sinal forte e confiança alta, exceção deliberada à regra de que a 2ª ordem não tem alta: a survey de 53 sistemas nativos de IA nomeia "geração controlável limitada por regra" como o primeiro desafio da agenda, e o WSE-bench mostra por quê — acrescentar restrição estrutural melhora a narrativa e a encurta, o que é a definição operacional do híbrido. e6.3 é uma contradição interna deliberada (ver 5.4).

R2 · e7 — a crítica sem objeto. Porque a crítica é um discurso sobre um objeto que o leitor pode conferir, e a obra instanciada não é conferível. Foi o efeito mais rebaixado da bateria (prazo 2032→2036, confiança média→baixa) e a razão está na classe de referência: Bandersnatch (Netflix, 2018) prometeu narrativa adaptativa em escala de massa e não gerou categoria em sete anos; o formato voltou a ser experimento. Rebaixar aqui é reconhecer que a crítica só perde o objeto se a obra adaptativa virar volume relevante, e nada indica que vire antes de meados da década de 2030. e7.2 é o contramovimento social — comunidades fixam uma execução canônica — e vale mais que e7.1: a cópia volta por convenção, sem que ninguém a distribua.

R2 · e8 — classificar o que ainda não existe. Porque a classificação indicativa é feita por amostra da obra acabada, e a obra só acaba de existir depois que o jogador fala. O aviso da Anuttacon na página da Steam é a admissão pública. e8.1 segue porque quando o conteúdo é produzido em tempo de execução, quem o hospeda é quem pode contê-lo — é o mesmo raciocínio que deslocou responsabilidade para plataformas de mídia social. e8.1.1 é quem perde: o autor solo, empurrado para fora por não poder operar um serviço. e8.2 é a nota brasileira e é o efeito de confiança mais frágil deste ramo — não abri fonte sobre o regime brasileiro de classificação indicativa nesta rodada, e está declarado na seção 8.

R2 · e9 — a retroação do ramo: a promessa não se cumpre. Porque poder dizer qualquer coisa não é o mesmo que poder mudar o que acontece, e o público mede a segunda coisa. O mecanismo está medido: o WSE-bench mostra que escala melhora a geração sustentada mas não a coerência nem o desenvolvimento, com fronteira de Pareto não-côncava entre consistência e riqueza; o NarrativeWorldBench trava 21 modelos entre 0,78 e 0,81 de Plot-Beat F1; e o Narrative Flattening mostra que o pós-treino comprime justamente a variação que a promessa vende. Três medidas independentes apontando para o mesmo lugar é o que sustenta sinal forte e confiança alta. e9.1 e e9.2 são o ajuste de discurso comercial que se segue.

R2 · e10 — a obra como controlador de dados. Porque memória longitudinal de conversa é dado pessoal, e dado pessoal tem regime jurídico próprio, independente de o produto ser ficção. e10.1 é a consequência mais estranha e mais concreta: exercer o direito ao esquecimento apaga a história vivida — o direito do titular colide com a integridade da obra. e10.2.1, o nicho das "histórias que não aprendem", é o tipo de efeito que parece absurdo até se lembrar de que existe mercado para telefone sem câmera e para carro sem telemetria.

R3 · e11 — a obra atravessa a língua sem licença. Porque hook de memória mais LLM elimina a necessidade de qualquer intermediário entre o texto do jogo e o leitor em outra língua. Sinal forte e confiança alta: o LunaTranslator existe, é GPLv3, cobre "quase todas as novelas visuais" por hook e ainda alcança emuladores de quatro consoles. e11.1 segue porque a exclusividade territorial em mídia sempre foi operada pela língua, e o que resta de exclusivo quando a língua vaza é o serviço. e11.2 nomeia quem perde de um jeito que costuma passar batido: não é só o tradutor — é o autor, que perde a primeira impressão da própria obra em mercados que nunca visitou. e11.3 é o desaparecimento silencioso de um ofício amador de três décadas, e é o efeito deste mapa que mais claramente mostra que "quem perde" não é sempre quem tem contrato.

R3 · e12 — a localização muda de unidade. Porque quando a primeira versão sai da máquina, o trabalho humano se desloca para o que a máquina erra, e o que a máquina erra não se mede em palavras. O dado que sustenta: localização por IA aparece em 18% dos jogos bem-sucedidos da Steam contra 6% dos malsucedidos — quem vende já faz assim. e12.1 e e12.1.1 formam o ciclo mais longo do mapa e o único com prazo em 2043, além do horizonte (declarado): elimina-se o degrau de entrada em 2032, e a falta de sênior aparece cerca de dez anos depois, que é o tempo que leva para formar um. A classe de referência é a revisão tipográfica, que sumiu como posto de entrada nos anos 1990 e cuja falta as editoras passaram a sentir por volta de 2005. e12.2 é a nota brasileira mais concreta: 78 estúdios brasileiros foram à gamescom 2026, o setor fez mais de US$ 138 milhões em negócios globais e 55% da receita dos estúdios nacionais vem do mercado externo. Para quem já exporta a maior parte, cair o custo de língua muda o cálculo de lançamento no dia um. e12.2.1 é a contrapartida: o que sobra de diferencial é justamente o que é mais caro de traduzir.

R3 · e13 — a retroação do ramo: a voz trava. Porque a voz tem dono com contrato coletivo, e o texto não tem. O Acordo de Mídia Interativa 2025 da SAG-AFTRA, ratificado em julho de 2025 por 95,04% após greve de 11 meses, exige consentimento "separado, escrito, claro e conspícuo e razoavelmente específico" antes da criação e do uso de réplica digital, descrição razoavelmente específica do uso, e negociação sempre que qualquer voz sintética for criada por IA generativa — não apenas voz de personagem humano. No Brasil, o pedido do setor na Câmara em 29/08/2024 foi pela aprovação do PL 2338/23 (remuneração por direito autoral quando a obra alimenta IA) e do PL 1376/22 (dublagem e legendagem por empresas e profissionais sediados no país), além do reconhecimento da dublagem como patrimônio imaterial. e13.1 é a consequência estrutural: a obra passa a ter duas camadas jurídicas e o consumo transfronteiriço fica legendado mesmo quando a síntese já é boa. e13.2 é o efeito brasileiro, e é desconfortável: a proteção pode produzir menos dublagem em português, não mais.

R3 · e14 — escrever para a máquina traduzir. Porque, se a maior parte dos leitores vai ler a saída da máquina, o autor otimiza para ela. Foi rebaixado de confiança média para baixa na bateria: linguagem controlada para tradução já existe há décadas em documentação técnica e nunca contaminou a ficção, que é onde o intraduzível é valor. e14.2 sobrevive porque tem ator e mecanismo específicos: o autor brasileiro que escreve mirando exportação, com oralidade e regionalismo penalizados na conversão.

R4 · e15 — a declaração vira obrigação. Porque cada plataforma e cada jurisdição resolve o problema da confiança criando um campo, e os campos não coincidem. O sinal é forte e múltiplo: Valve (16/01/2026), itch.io (20/11/2024), IFComp 2026, Jabuti 68ª, Art. 50 desde 02/08/2026, AI Basic Act coreano com carência de um ano. e15.1 é o atrito concreto: a Valve pergunta por conteúdo consumido pelo jogador e isenta ferramenta de fluxo; o Art. 50 exige marcação legível por máquina na saída do sistema. São perguntas diferentes sobre o mesmo produto, e a resposta honesta a uma pode ser omissão na outra. e15.2 é, para mim, o efeito mais subestimado deste mapa inteiro: o Art. 50 reduz a obrigação quando o conteúdo "faz parte de uma obra evidentemente artística, criativa, satírica, ficcional ou análoga", exigindo apenas informar de modo que não atrapalhe a fruição. A ficção inteira cabe nessa frase. e15.2.1 é a consequência: a fronteira ficção/informação passa a decidir obrigação jurídica, e por isso vira objeto de litígio.

R4 · e16 — o selo do avesso. Porque, quando não se consegue detectar a máquina, vende-se a certificação do humano. Está montado: Authors Guild, US$ 10 por título, público desde 02/03/2026, com verificação de identidade por terceiro — e é isso que faz e16.1 derivar: o que se verifica é quem assinou, não quem escreveu; um atestado não verificável só sustenta valor de sinal até a primeira fraude pública. A classe de referência é o selo orgânico e o "cruelty-free": ambos passaram por um escândalo de certificação nos primeiros cinco a dez anos e migraram para auditoria de processo. e16.2 é quem perde: autor de país sem instituição certificadora — o que inclui o Brasil, onde o Jabuti proíbe mas não certifica — presumido gerado por quem seleciona lá fora.

R4 · e17 — a retroação do ramo: a suspeita vira norma. Porque o detector erra nos dois sentidos e a instituição não pode usá-lo, o que deixa a acusação sem árbitro. O caso Jamir Nazir não é hipótese: Pangram alegando 100%, a Commonwealth Foundation dizendo que checar submissão não publicada esbarra em consentimento e propriedade artística e operando por "princípio de confiança", uma editora consultando um modelo para decidir sobre outro, o autor em silêncio, e nenhuma conclusão possível. Neil Clarke, do outro lado, mantém revisão humana e escreve que "a tecnologia nunca deve ter a última palavra". e17.1 segue porque quando o exame do texto não decide, decide-se por procedimento sobre a pessoa. e17.2 e e17.2.1 são o custo: o ônus recai sobre quem não tem nome feito, e o falso positivo vira dano.

R4 · e18 — a coautoria vira gênero. Foi empurrado de 2033 para 2036 e rebaixado a confiança baixa: a classe de referência é dura. A fotografia levou décadas para ser aceita como arte; o sampler levou cerca de quinze anos e uma leva de processos judiciais; o autotune nunca virou crédito, apenas prática silenciosa. Não há razão para supor que a coautoria com máquina tenha percurso mais rápido do que qualquer um desses — e e18.2.1 registra o desfecho ambíguo: categoria separada normalmente esvazia ou engole a principal, e nos dois casos a distinção some.

5.2 Cobertura STEEP e quem perde

DimensãoEfeitos de 1ª ordem que a cobrem
Sociale2 (descoberta), e4 (recusa ao rótulo), e7 (crítica sem objeto), e17 (suspeita como norma)
Tecnológicoe1 (build como pitch), e6 (custo por sessão), e9 (liberdade conversacional ≠ narrativa), e11 (tradução sobreposta)
Econômicoe2, e3 (contratação por restrição), e6, e12 (localização muda de unidade), e16 (selo pago)
Ecológicocategoria vazia — ver nota abaixo
Político / regulatórioe8 (classificação indicativa), e10 (dado pessoal), e13 (voz com contrato), e15 (declaração obrigatória)

A categoria ecológica ficou vazia, e isso é uma escolha declarada, não um esquecimento. O custo energético da inferência é real e aparece indiretamente em e6 (custo por sessão), mas não achei, nas 24 fontes abertas, nenhum dado que ligasse consumo energético especificamente à narrativa gerada em oposição a qualquer outra inferência. Forçar um efeito ecológico aqui seria escrever algo que serve igualmente a todos os 19 temas da disciplina — exatamente o anti-padrão que a skill proíbe. Fica registrado como buraco: quem retomar este mapa com dado de consumo por token em contexto longo tem um ramo inteiro para abrir.

Quem perde, nomeado:

QuemPor qual efeitoO que perde
Autor estreante sem rede sociale2.2.1o acesso, justamente quando produzir ficou barato
Tradutor júnior de jogose12.1o degrau de entrada da carreira
Tradutor amador de comunidadee11.3um ofício de trinta anos, por obsolescência
Dublador brasileiroe13.2o trabalho, por duas vias opostas — síntese barata ou fuga do mercado protegido
Autor individual sem operadore8.1.1o direito de publicar obra generativa sem ser serviço regulado
Autor de país sem certificadorae16.2a presunção de autoria
Autor de qualquer obrae11.2o controle sobre a primeira impressão em outra língua
Crítico e professor de literaturae7o objeto comum que torna a conversa possível
Escritor de jogo pago por volumee3a unidade de cobrança
Leitore10.2a conversa, que vira corpus

5.3 Convergências

Três ramos de raízes diferentes chegam ao mesmo lugar. São os achados mais valiosos do mapa, porque nenhum deles é visível olhando uma raiz de cada vez.

C1 — A prova de processo. e4.1.1 (produzir prova de autoria durante a escrita, vindo de R1, pela recusa do público) e e16.1.1 (a certificação migra de atestado para evidência de processo, vindo de R4, pela falência do selo) são o mesmo efeito por dois caminhos independentes: um puxado pelo mercado, outro pela instituição. Quando dois vetores distintos apontam para a mesma solução técnica, ela costuma acontecer. Se este mapa estiver certo em uma coisa só, é nesta: o registro de processo de escrita vira infraestrutura, e escrever vira uma atividade logada. É também o efeito mais desconfortável do mapa, porque resolve o problema da autoria criando um problema de vigilância.

C2 — A obra que vira serviço. e8.1 (responsabilidade migra para o operador, vindo de R2) e e11.1 (distribuição migra de exclusividade de língua para exclusividade de serviço, vindo de R3) convergem em: o que se vende deixa de ser a obra e passa a ser a operação em torno dela. Duas causas sem relação — regulação de conteúdo e vazamento de língua — produzindo a mesma mudança de modelo de negócio.

C3 — O humano como atributo de produto. e4.2 (dois mercados com dois preços, de R1), e9.2 (ramificação escrita à mão como diferencial vendido, de R2) e e16 (selo pago, de R4) convergem em: o trabalho humano deixa de ser o modo de fazer e vira uma característica anunciada na embalagem. É o efeito que mais mexe com quem projeta mídia, porque muda o briefing: passa a ser preciso decidir, antes de começar, se a obra vai ser vendida como humana.

5.4 Retroalimentações e contradições

Retroalimentação negativa (freia a raiz): e17 → R4. A falência pública da detecção reforça a raiz da autoria declarada — se não dá para verificar, só resta declarar — e ao mesmo tempo destrói o valor da declaração, porque uma declaração que ninguém audita não informa. O ciclo é: mais volume → mais suspeita → mais declaração exigida → menos valor por declaração → mais volume passando. É um ciclo que não se estabiliza sozinho, e é por isso que e4.1.1 e e16.1.1 (a prova de processo) aparecem como saída nos dois ramos.

Retroalimentação negativa: e9 → R2. Quanto mais se vende a promessa de história única, mais rápido o público mede que a história não é única, e mais cara fica a próxima promessa. A consequência é que R2 se desacelera por sucesso, não por fracasso técnico.

Retroalimentação positiva: e12.2 → R3. Estúdios que lançam em dez línguas no dia um geram mais texto traduzido por máquina em circulação, o que normaliza ler traduzido por máquina, o que baixa a resistência à sobreposição não licenciada. A raiz se alimenta.

Contradição 1 — permanência × encerramento (e6.1 × e6.3). Em assinatura, o custo por sessão é despesa e o desenho quer encurtar; em venda unitária com servidor pago pelo estúdio, o custo por sessão também é despesa, mas a métrica de sucesso é resenha positiva, que exige permanência. Os dois desenhos não podem ser o mesmo produto. Não resolvo: registro os dois e digo o que decide entre eles — decide o modelo de cobrança, e ele será escolhido antes do desenho narrativo, não depois. Quem projeta mídia precisa saber que essa decisão, que parece comercial, é a decisão estética.

Contradição 2 — declarar × esconder (e4 × e15). O mercado pune quem declara e o regulador pune quem não declara. Os dois efeitos são fortes, ambos com evidência, e são incompatíveis como estratégia. O que decide: a jurisdição de maior receita. Enquanto a receita vier majoritariamente de mercados sem obrigação executável, esconder ganha; quando a UE ou a Coreia representarem parcela grande o bastante e a fiscalização for real, declarar ganha. Não é uma questão de ética do estúdio — é aritmética de faturamento, e isso deveria ser dito em voz alta.

Contradição 3 — a obra sem original × a obra que se aplaina (e5 × e14). Se o texto nasce em n línguas simultaneamente (e5), não faz sentido escrever pensando em traduzir (e14). Os dois efeitos assumem futuros diferentes para a mesma raiz. O que decide entre eles: se a geração multilíngue simultânea alcança qualidade literária. Se alcançar, e14 morre; se não alcançar, e5 morre. Os dois estão no mapa porque hoje não há evidência que resolva — e o Narrative Flattening, ao mostrar que o pós-treino comprime mais justamente contra a ficção literária profissional, inclina levemente a favor de e14.

5.5 Regra de parada

Parei a derivação em três níveis por imposição do formato, mas em quatro ramos parei antes, por falta de troca de ator ou de mecanismo — e registro quais, porque continuar ali teria produzido o mesmo efeito envelhecido com outro nome:

6. Sinais fracos e wildcards

6.1 Sinais fracos

SF1 — A obra lida numa língua que ninguém licenciou. Onde foi visto: LunaTranslator, GPLv3, hook de memória em "quase todas as novelas visuais", OCR embutido, hook de emuladores de NS/PSP/PSV/PS2 e embutimento da tradução de volta na tela. O que mudaria: se isso sair do nicho de novela visual japonesa e virar camada de sistema operacional ou de loja, a localização deixa de ser uma etapa e vira um recurso do dispositivo — e o mapa inteiro de R3 acelera cinco anos. Sinal observável de que está crescendo: uma loja grande (Steam, Epic, Google Play) embutir tradução sobreposta como recurso de plataforma, ou um fabricante de console anunciá-la no firmware. Métrica secundária: a fatia de declarações de IA em localização na Steam passar de 18% entre os jogos bem-sucedidos para acima de 40%.

SF2 — A isenção de obra artística do Artigo 50. Onde foi visto: o texto do Art. 50 reduz a obrigação de divulgação quando o conteúdo integra "uma obra ou programa evidentemente artístico, criativo, satírico, ficcional ou análogo", exigindo apenas informar de modo que não atrapalhe a fruição. O que mudaria: toda a ficção gerada escapa da marcação visível, e o regime de declaração que o resto deste mapa assume simplesmente não se aplica ao objeto deste mapa. É o sinal fraco que mais poderia inverter as conclusões de R4. Sinal observável: a primeira decisão de autoridade nacional, ou a primeira versão do Código de Conduta do AI Office sobre marcação, que diga se um jogo narrativo generativo é "obra evidentemente artística". Data provável do primeiro teste: o fim do prazo de adequação em 02/12/2026.

SF3 — O achatamento narrativo medido, não opinado. Onde foi visto: Narrative Flattening (arXiv 2605.27878) medindo, ao longo de quatro checkpoints do OLMo 32B, que o pós-treino comprime movimento temático, intensidade afetiva e diversidade estilística — com a maior perda contra ficção literária profissional e convergência entre domínios. O que mudaria: se a compressão for inerente ao alinhamento e não um artefato de receita, então "cada leitor, uma história" é tecnicamente contraditório com "modelo seguro e comportado", e o produto que R2 promete não pode existir sem abrir mão da segurança. Sinal observável: aparecer um modelo pós-treinado que não comprime as três dimensões — ou uma linha de modelos vendida explicitamente como "pós-treino para variação", com métrica publicada.

SF4 — A obra que apaga a si mesma por pedido de dado. Onde foi visto: não em produto, mas na colisão lógica entre memória longitudinal de personagem (que a survey de jogos nativos de IA nomeia como problema central) e direito de eliminação de dado pessoal. O que mudaria: o primeiro pedido de exclusão que apagar uma história de duzentas horas cria jurisprudência sobre se a obra vivida pertence ao leitor ou ao autor. Sinal observável: a primeira política de privacidade de jogo narrativo que trate explicitamente o enredo como dado do titular — ou a primeira reclamação em autoridade de proteção de dados sobre isso.

SF5 — A performance de autoria como prova. Onde foi visto: o silêncio de Jamir Nazir diante do New York Times e do Guardian pesou tanto na discussão quanto o detector; e Neil Clarke descrevendo revisão humana como último recurso. O que mudaria: se a prova de autoria virar procedimento sobre a pessoa — entrevista, defesa, escrita presenciada —, o prêmio literário se aproxima do concurso público e da banca acadêmica, e a obra deixa de bastar. Sinal observável: o primeiro prêmio literário de porte que exija arguição do autor finalista como etapa formal do regulamento.

SF6 — A base instalada que não se mexe. Onde foi visto: Ren'Py 8.5.3 (15/05/2026), 8.000+ obras, nenhuma menção a IA na página do projeto; IFComp 2026 proibindo conteúdo gerado voltado ao jogador. O que mudaria: é um sinal fraco ao contrário — indica que a comunidade histórica da ficção interativa pode não ser absorvida, e sim se constituir como reserva declarada. Se a reserva crescer em vez de encolher, R1 encontra um teto cultural que os números da Steam não mostram. Sinal observável: o número de inscrições na IFComp subir, e não cair, nos dois anos seguintes à regra de 2026.

6.2 Wildcards

W1 — Um prêmio literário de primeira linha premia uma obra e depois descobre que ela foi gerada; ou acusa e erra. Mecanismo: o júri lê às cegas, a detecção não é usada (por consentimento e propriedade artística, como a Commonwealth Foundation argumentou), o vencedor é anunciado, e a prova aparece depois — ou não aparece nunca, como no caso de 2026, e a dúvida fica. Por que é improvável: porque prêmios grandes têm camadas de leitura e relação prévia com agentes e editoras, que funcionam como filtro social antes do texto. O que faria com o mapa: acelera e17.1 (migração para procedimento) em cerca de cinco anos e torna e16 (selo pago) obrigatório de fato, não voluntário; e se a acusação for falsa, torna e17.2.1 (litígio por falso positivo) um efeito de 1ª ordem, não de 3ª. Sinal precoce: um prêmio de porte incluir no regulamento cláusula de revogação retroativa por uso de IA. Nota honesta: este wildcard já quase aconteceu em 2026 no Commonwealth Short Story Prize, o que é motivo para tratá-lo como sinal forte, e não como wildcard — mantive-o aqui porque a versão completa (prova conclusiva, revogação, consequência) ainda não ocorreu.

W2 — Um tribunal decide que a tradução sobreposta em tempo de execução não é obra derivada. Mecanismo: a sobreposição não modifica nem redistribui o arquivo original; ela lê a memória do processo na máquina do usuário e desenha por cima. Um tribunal pode enquadrar isso como acessibilidade e uso pessoal, e não como derivação. Por que é improvável: porque a indústria de mídia tem histórico de vitória nesse tipo de disputa e recursos para litigar. O que faria com o mapa: R3 deixa de ter freio jurídico e e11 e e11.1 passam a valer para vídeo e livro também, não só para jogo — e a localização como indústria encolhe muito mais rápido do que e12 supõe. Sinal precoce: um fabricante de sistema operacional embutir tradução sobreposta de tela com defesa jurídica pública, ou uma decisão sobre leitores de tela e acessibilidade que se estenda por analogia.

W3 — O custo de inferência cai duas ordens de grandeza e o modelo roda inteiro no dispositivo. Mecanismo: modelo pequeno, especializado em narrativa, rodando local. Por que é improvável: porque a qualidade narrativa hoje depende de contexto longo, e contexto longo é justamente o que consome memória — o caminho técnico existe, mas não é o que os números de consistência de 2026 sugerem estar perto. O que faria com o mapa: mata e6 inteiro (custo por sessão desaparece), mata e8.1 (sem operador, não há para quem migrar responsabilidade), mata e10.2 (sem servidor, a conversa não vira corpus de ninguém) e devolve R2 ao autor individual. É o wildcard que mais melhora o mapa para quem escreve sozinho, e o único que desfaz três efeitos de uma vez. Sinal precoce: um jogo narrativo comercial de porte enviar o modelo junto com o jogo, sem chamada de rede — e não pedir assinatura.

W4 — Uma obra gerada se torna best-seller mundial com a coautoria assumida na capa. Mecanismo: não é qualidade média, é cauda: milhões de obras geradas, uma delas encontra o público. Por que é improvável: porque o Narrative Flattening sugere que a distribuição de saída do modelo é mais estreita, não mais larga — a cauda é justamente o que o pós-treino corta. O que faria com o mapa: e18 (coautoria vira gênero) salta de 2036 para dois anos depois do evento, e e4 (recusa ao rótulo) se inverte de custo para atrativo. Sinal precoce: uma obra com selo declarado de coautoria entrar em lista de mais vendidos de grande imprensa por mais de quatro semanas.

7. Contra o próprio mapa

O que segue é o resultado da bateria do §6 da skill, aplicada ao mapa já pronto, com o mapa alterado em seguida. O registro auditável está em 7.8.

7.1 Pré-mortem: é 2041 e este mapa está errado. Por quê?

Razão 1 — A geração nunca resolveu a consistência em extensão, e o objeto deste mapa simplesmente não chegou a existir. Em 2041, obra narrativa gerada inteira continua sendo curiosidade de cinco minutos; o que se consolidou foi a IA como ferramenta de produção (localização, voz, arte) dentro de pipelines humanos, que é exatamente o que os números da Steam de 2026 já mostravam e ninguém quis ler. Os dados apontam para isso hoje: 0,113 erro por 10 mil palavras em obras de 8 a 10 mil, queda de 0,20 no Plot-Beat F1 quando o horizonte vai a 200 episódios, e a fronteira não-côncava entre consistência e riqueza do WSE-bench. Aponta para: R1 e R2. Consequência aplicada: rebaixei e7 (prazo 2032→2036, confiança média→baixa) e e18 (2033→2036, média→baixa), e mantive e6.2 (arquitetura híbrida) com sinal forte — porque, se esta razão se confirmar, e6.2 é o efeito que sobra de pé.

Razão 2 — O regime de declaração não pegou porque a isenção de obra artística engoliu a ficção inteira. Em 2041, todo mundo declara na loja e ninguém marca legivelmente por máquina, porque jogo e romance são "obra evidentemente artística" na acepção do Art. 50, e a marcação ficou restrita a notícia, publicidade e deepfake de pessoa real. Aponta para: R4, e especialmente e15.1. Consequência aplicada: promovi a isenção a sinal fraco próprio (SF2) e escrevi e15.2 como efeito explícito em vez de nota de rodapé, com confiança média — porque o texto legal está aberto e a interpretação, não.

Razão 3 — A recusa cultural foi mais forte e mais duradoura do que este mapa supõe. Em 2041, "gerado" é um rótulo de baixo prestígio consolidado, como "direto para vídeo" ou "sampler não creditado" foram, e o mercado se estabilizou com a obra gerada ocupando o rodapé do catálogo. Os 52% de 2026 viraram 70%, o público treinou o olho, e o valor econômico ficou onde já estava em 2026: 30,8% dos lançamentos e 10–27% das vendas. Aponta para: toda a cadeia de R1 que assume normalização. Consequência aplicada: removi e1.2 e rebaixei e1 de confiança alta para média; e mantive e4 (a retroação) com sinal forte e confiança alta, que é o efeito que essa razão mais reforça.

7.2 Extrapolação linear — o que é só "mais do mesmo, maior"

7.3 Velocidade de adoção, confrontada com classe de referência

EfeitoPrazo originalReferência usadaVeredito
e5 (obra sem original)2033tradução neural: 2016 → uso corrente ~2022-24, ~7 anos; qualidade literária multilíngue é mais difícilempurrado para 2035
e7 (crítica sem objeto)2032Bandersnatch (2018): narrativa adaptativa de massa não gerou categoria em 7 anosempurrado para 2036 e rebaixado
e18 (coautoria vira gênero)2033fotografia como arte: décadas; sampler: ~15 anos e litígio; autotune: nunca virou créditoempurrado para 2036 e rebaixado
e12.1.1 (falta de sênior)2040revisão tipográfica: posto de entrada some nos anos 1990, falta sentida ~2005, ~10-15 anosempurrado para 2043, fora do horizonte, declarado
e1.1.1 (ensino reabsorvido)2038currículo universitário muda em ciclos de 8-10 anos, e o gatilho é de 2031empurrado para 2042, fora do horizonte, declarado
e2 (descoberta vira gargalo)2028já está acontecendo: 13 → 530 lançamentos/mês com IA declaradamantido
e15 e e16 (declaração e selo)2028já em vigor: Art. 50 desde 02/08/2026; Human Authored público desde 02/03/2026mantidos

7.4 A raiz que não acontece

Nenhuma raiz é disfarce de outra: cada uma pode falhar isoladamente sem levar o mapa junto. O caso mais próximo de dependência é R1↔R2 (as duas assumem geração de qualidade), e por isso as separei pelo que rompem, não pelo que usam: R1 rompe a unidade de produção, R2 rompe a identidade da obra. Uma obra gerada inteira e distribuída como cópia fixa satisfaz R1 sem R2 — é o que o MangoBox faz.

7.5 Teste da causa solta

Removi cada raiz e perguntei se o efeito aconteceria do mesmo jeito por outro motivo.

7.6 Suposições escondidas

  1. Que o custo de inferência continua caindo, mas não despenca. Se despencar (W3), três efeitos morrem. Se subir — energia cara, escassez de chip —, e6 vira o efeito dominante do mapa e R2 não sai do nicho. O mapa está escrito supondo a faixa do meio, o que é a suposição mais confortável e menos justificada que ele tem.
  2. Que o modelo aberto continua aberto. Todo o ramo do autor individual — e8.1.1, W3, parte de e11 — supõe que existirá modelo bom rodando fora de plataforma. Se a fronteira fechar, obra generativa passa a ser necessariamente serviço de terceiro, e e8.1.1 (o autor solo empurrado para fora) deixa de ser efeito de 3ª ordem e vira condição de partida.
  3. Que a plataforma continua permitindo. Valve podia ter proibido em vez de criar campo de declaração. Criou campo. Se uma loja grande proibir obra gerada em execução, R2 perde o único canal comercial que tem.
  4. Que o público continua sendo o árbitro. O mapa supõe que a recusa do público (e4, e9) tem força econômica. Se a distribuição se concentrar mais — recomendação algorítmica decidindo o que se vê —, a recusa vira ruído e e4 some.
  5. Que "obra" continua sendo uma categoria com que as pessoas se importam. É a suposição mais invisível deste mapa e a que o tema mais ameaça. Toda a seção R4 supõe que alguém quer saber quem escreveu. Talvez, em 2041, não queira — e nesse caso R4 inteira é ansiedade de 2026 projetada no futuro.

7.7 Viés do autor

Viés declarado no briefing: neutro. Viés real que consigo nomear:

7.8 Registro de alterações — antes → depois

A bateria derrubou ou rebaixou pelo menos um efeito em cada raiz, como a cota exige.

R1 — obra instanciada a partir de intenção curta

R2 — obra instanciada diferente por leitor

R3 — tradução sobreposta

R4 — autoria como declaração

Calibração após as alterações. Ordem 1: 9 alta · 6 media · 3 baixa. Ordem 2: 1 alta · 28 media · 8 baixa. Ordem 3: 0 alta · 0 media · 21 baixa. A distribuição cai com a ordem, como deve. A única confiança alta de 2ª ordem é e6.2, e está justificada no texto.

A bateria derrubou alguma coisa? Sim: dois efeitos removidos, seis rebaixados de confiança e sete prazos empurrados, dois deles para fora do horizonte. Não escrevo aqui "a bateria não derrubou nada".

8. O que a máquina errou

Eu sou a máquina. Sobre este trabalho, nesta rodada:

  1. Citei a lição do GDC 2026 sem ter aberto a fonte primária. A frase "liberdade conversacional não é liberdade narrativa" e o dado de custo por sessão vieram de resumo de busca sobre o texto de Hilary Mason e Eleanor Todd; tanto o artigo no Medium quanto a página da sessão na GDC devolveram 403. Corrigi reescrevendo e9 inteiro para se apoiar em três fontes que abri (survey arXiv 2607.00527v2, WSE-bench, ConStory-Bench), e a frase não aparece como citação em lugar nenhum do mapa. A tentação de citá-la assim mesmo foi real: ela é boa demais e resume o efeito melhor do que eu.
  1. Usei um dado da Nimdzi sobre localização de jogos que não consegui abrir. A frase de que verticais como videogame "caíram no ranking, fortemente impactadas por melhorias rápidas na localização por IA" apareceu em resultado de busca; a página da Nimdzi devolveu 403. Não entrou no documentoe12 está ancorado apenas no estudo dos 53.597 lançamentos da Steam, que abri. Registro aqui porque a tentação de citar "Nimdzi 2026" como se eu tivesse lido é exatamente o erro que esta seção existe para pegar.
  1. e8.2 (classificação indicativa brasileira) não tem fonte aberta. Escrevi um efeito sobre o regime brasileiro de classificação indicativa sem ter aberto uma única fonte sobre ele. Está com sinal fraco e confiança baixa, mas isso não basta: é inferência a partir do que sei de memória, e a memória é exatamente o que não deveria sustentar afirmação em mapa com fonte. Quem retomar, comece por aí.
  1. Atribuí ao MangoBox mais peso do que a evidência sustenta. É a única âncora de produto para R1 e tem uma página "about" de uma frase, sem número de usuário, de obra ou de preço. Construí uma raiz inteira sobre um objeto que não consigo dimensionar. O que compensa parcialmente é que a raiz R1 não depende do MangoBox — depende do mecanismo —, mas se alguém perguntar "quantas obras assim existem?", a resposta honesta é que não sei.
  1. Datei mal uma fonte brasileira na primeira versão desta seção. A audiência sobre dublagem e IA na Câmara é de 29/08/2024, não de 2026; eu a havia tratado como recente porque apareceu numa busca com termos de 2026. Corrigido no texto e na seção 11. O PL 2338/23 segue em tramitação, e e13.2 está escrito como condicional justamente por isso.
  1. A frase "um erro de consistência por obra curta" é minha, não do paper. O ConStory-Bench reporta 0,113 erro por 10 mil palavras em histórias de 8 a 10 mil palavras; multiplicar isso e dizer "cerca de um erro por obra" é uma leitura razoável, mas é minha, e um revisor pode objetar que a métrica não se lê assim. Deixei a conta explícita no texto para que a objeção seja possível, em vez de esconder o arredondamento.
  1. Nomeei prazos com precisão que a evidência não tem. "2029", "2031", "2036" sugerem uma resolução que não existe: em quase todos os casos, a faixa honesta seria de três a cinco anos. Usei ano cheio porque o formato exige inteiro, e cada prazo tem classe de referência escrita no §5.1 — mas quem ler a tabela sem ler a prosa vai atribuir ao mapa uma precisão que ele não tem.

9. Três cenários para 2041

Provável. A obra narrativa gerada inteira existe e é abundante, e quase nada dela é lido. O desenho que venceu é o híbrido: regra no controle, modelo na superfície — o mesmo que os benchmarks de 2026 já indicavam. O que mudou de verdade em quinze anos não foi a história: foi a língua. A tradução sobreposta virou recurso de plataforma e ninguém mais decide em que idioma lança, porque a decisão não retém ninguém; a localização se reorganizou em torno de adaptação cultural e de voz, que é a única camada com dono contratado, e há uma geração faltando de tradutores seniores. A autoria virou declaração: toda loja, prêmio e editora tem seu campo, nenhum campo fala com o outro, o selo humano custa dinheiro e ninguém o audita. A suspeita é a condição normal de leitura, e o custo dela recai sobre quem não tem nome feito. Escritores de jogo são contratados para dizer o que o sistema não pode dizer. Sinal precoce de que estamos entrando neste cenário: uma loja grande embutir tradução sobreposta como recurso de plataforma, enquanto a fatia de receita dos jogos com IA declarada continua abaixo de um terço.

Desejável. A geração ficou onde é boa — atravessar a língua, baixar o custo de mostrar — e a coautoria virou ofício com convenção de crédito, como a montagem e a direção de fotografia viraram no cinema. Existe uma ficha técnica: quem definiu a intenção, quem curou, quem revisou, qual modelo. A prova de autoria é de processo, não de detecção, e é do autor — um registro que ele controla e exibe se quiser, não uma vigilância que a plataforma opera sobre ele. Prêmios pararam de proibir e passaram a separar, e a categoria de coautoria assumida tem prestígio próprio. A tradução sobreposta foi absorvida como acessibilidade, com remuneração pactuada para quem é traduzido. O que teve de ser feito para chegar aqui: o Código de Conduta do AI Office fixou um padrão de proveniência embutido no arquivo e legível por qualquer um, em vez de deixar cada plataforma com o seu campo; e as instituições aceitaram que não conseguem verificar, trocando detecção por procedimento antes de destruir a reputação de alguém por falso positivo. Sinal precoce: um padrão de proveniência adotado por mais de uma plataforma grande e por um prêmio literário, no mesmo ano.

Indesejável. A escrita virou atividade logada. Para publicar, provar; para provar, registrar; para registrar, usar a ferramenta que a plataforma aceita — e a plataforma guarda o histórico de composição de todo mundo. A certificação virou barreira de entrada: quem tem instituição nacional que certifique é presumido autor, quem não tem é presumido gerado, e o Sul global escreve sob suspeita. A obra narrativa virou serviço regulado, e o autor individual não consegue publicar ficção generativa sem operador. A crítica sumiu porque não há objeto comum, e o que restou de conversa sobre obra acontece dentro de comunidades que fixaram uma execução canônica por convenção — cada uma com a sua, incomunicáveis entre si. A dublagem em português acabou por dois lados ao mesmo tempo: síntese barata onde não há lei, e fuga do mercado onde há. Sinal precoce deste cenário: a primeira plataforma que exigir histórico de composição como condição de publicação — e for aceita sem reação, por ser apresentada como proteção ao autor.

10. O experimento

A Mesma História Duas Vezes

O que é. Uma obra narrativa curta, gerada, executada duas vezes com leitores diferentes, e um protocolo de leitura cruzada em sala. Três partes:

  1. O gerador. Uma novela visual curta (20-30 minutos) gerada a partir de uma intenção de duas frases, com um caderno de invariantes escrito à mão antes: dez a quinze fatos que não podem mudar entre execuções (quem é quem, o que aconteceu antes, o que é impossível neste mundo).
  2. O duplo. A mesma obra executada por duas pessoas, com semente e versão de modelo registradas. As duas execuções são gravadas na íntegra: entrada do leitor, saída do sistema, tempo, custo de inferência por sessão.
  3. O confronto. As duas pessoas conversam sobre "o livro que leram" sem ver a execução da outra, com uma terceira pessoa anotando onde a conversa quebra — em que momento exato as duas descobrem que não leram a mesma coisa, e o que fazem em seguida.

Que pergunta sobre o futuro ele ajuda a responder. A de e7 e e7.2, que é a mais incerta do mapa e a que menos se resolve com bibliografia: ainda existe "a obra" quando ela se instancia diferente para cada leitor, e as pessoas conseguem conversar sobre ela? A hipótese do mapa é que não — e que as comunidades respondem fixando uma execução canônica por convenção social. O experimento testa exatamente isso, em pequeno, com gente de verdade.

Que tecnologia emergente ele usa, e por que não dá com a madura. Usa geração multimodal de obra inteira a partir de intenção curta (R1) e instanciação por leitor (R2). Com tecnologia madura não dá, e a razão é precisa: em Ren'Py ou Twine, as duas execuções seriam dois caminhos de um mesmo grafo escrito por alguém — as duas pessoas teriam lido a mesma obra por rotas diferentes, que é uma experiência que existe desde os livros-jogos dos anos 1980 e sobre a qual não há nada de novo a descobrir. O que o experimento precisa é que o texto que a segunda pessoa leu nunca tenha existido antes de ela ler, e isso nenhuma ferramenta madura faz.

O que a turma faz ao testar em sala. Cada dupla executa e grava. Depois, em plenário: (a) medimos quantos dos invariantes do caderno foram violados em cada execução — é a versão de sala do ConStory-Bench, e o número costuma surpreender; (b) cronometramos quanto tempo a conversa leva até quebrar; (c) a turma decide, coletivamente e por argumento, qual execução vai ser a canônica — e o que exatamente ficou de fora quando decidiu; (d) cada pessoa escreve três linhas de resenha e vemos se as resenhas são comparáveis entre si. O item (c) é o coração do experimento: é ali que e7.2 acontece ou não acontece na frente de todo mundo.

O que seria um resultado que me faria mudar de ideia. Dois, e são simétricos:

Custo e viabilidade. Roda em uma aula com ferramenta de navegador e um modelo comercial. O caderno de invariantes é escrito na aula anterior, em vinte minutos. O que não dá para improvisar é a gravação completa das duas execuções: sem ela, o item (a) vira impressão, e impressão é o que este experimento existe para substituir.

11. Fontes

Vinte e quatro fontes abertas e lidas em 12/09/2026. Fonte que não abriu não entrou — as que devolveram 403 e o que eu teria citado delas estão em 12.4. Todos os links foram conferidos com o mesmo método do verificador; a saída está em 12.6.

  1. IFComp — regras da 32ª edição (2026). https://ifcomp.org/rules/ Sustenta a regra de que "todo o conteúdo voltado ao jogador precisa ser inteiramente criado por humanos, incluindo arte de capa, prosa e todos os assets", com IA permitida só para assistência ao desenvolvimento. Confiabilidade: alta — é o regulamento na fonte, não noticiado.
  1. MangoBox — página "about". https://www.mangobox.ai/about Sustenta a existência do produto que gera novela visual jogável a partir de prompt. Confiabilidade: baixa como evidência de escala — é material do próprio fabricante, sem número de usuário, obra ou preço. Usada só para atestar existência.
  1. LunaTranslator — documentação oficial. https://docs.lunatranslator.org/en/ Sustenta os métodos de extração (hook de memória, OCR embutido, hook de emuladores NS/PSP/PSV/PS2), os motores de tradução incluindo LLM, e o embutimento da tradução na tela. GPLv3. Confiabilidade: alta para o que o software faz; é documentação do projeto.
  1. Llama & Griffin — The AI Disclosure Report, Steam Next Fest, junho de 2026. https://www.llamagriffin.com/Data/SteamNextFestJune2026/part-2.html Sustenta 26,5% de demos com IA declarada no pool rastreado (4.382 demos), ~20% no evento inteiro, ~60% das declarações sendo arte visual, e escrita/diálogo entre as menores fatias. Confiabilidade: média-alta — metodologia declarada (GDCo, SteamDB, declaração de desenvolvedor), mas é análise privada, não auditada.
  1. Cinevva — estudo de Sulka Haro sobre declaração de IA na Steam (20/07/2026). https://app.cinevva.com/news/2026-07-20-steam-ai-disclosure-study Sustenta os números centrais deste mapa: 53.597 lançamentos analisados; 10,9% (2024), 19,9% (2025) e 30,8% (2026) de lançamentos com IA declarada; 10-27% das vendas estimadas contra 3-6% em 2024; crescimento de 13 para ~530 lançamentos mensais; 60-90% de todo o crescimento de lançamentos; e a quebra por tipo — visual 72%, voz 8%, localização 6% entre os malsucedidos, contra voz 24% e localização 18% entre os bem-sucedidos. Confiabilidade: média-alta — amostra grande e método declarado, mas "sucesso" é definição do autor do estudo e as vendas são estimadas, não reportadas.
  1. Steam — página de Whispers from the Star (Anuttacon). https://store.steampowered.com/app/3730100/Whispers_from_the_Star/ Sustenta: lançamento em 14/08/2025, R$ 32,99, 1.659 resenhas com 80% positivas (leitura de 12/09/2026), a declaração de conversas movidas a IA em colaboração com ator, e o aviso de que o diálogo pode envolver temas sensíveis conforme a interação. Confiabilidade: alta para os fatos comerciais; a declaração de IA é do próprio estúdio.
  1. AI-Native Games: A Survey and Roadmap (arXiv 2607.00527v2, 03/07/2026). https://arxiv.org/html/2607.00527v2 Xu, Meng, Xu, Verbrugge, Lucas e Zhao. Sustenta: 53 jogos e protótipos analisados de 98 candidatos; aventura narrativa 45,3% (n=24); narrativa generativa/mestre de jogo 26,4% das mecânicas; e a lista de desafios abertos (geração controlável por regra, instabilidade de memória, latência e economia, dependência de modelo, moderação em execução). Confiabilidade: alta para o levantamento; é preprint, sem revisão por pares confirmada.
  1. ConStory-Bench — leaderboard (atualizado em 05/03/2026; arXiv 2603.05890). https://picrew.github.io/constory-bench.github.io/ Sustenta: cinco categorias e 19 subtipos de erro; histórias de 8-10 mil palavras; melhor modelo (GPT-5-Reasoning) com 0,113 erro por 10 mil palavras; concentração de erros em consistência factual e linha do tempo. Confiabilidade: média-alta — benchmark público com pipeline de avaliação automática, mas com julgamento por modelo, o que herda o viés do juiz.
  1. WSE-bench — When Stories Evolve (arXiv 2608.15654, 16/08/2026). https://arxiv.org/abs/2608.15654 Chen, Li, Cai, Li, Yan e Li. Sustenta: cobertura, consistência e riqueza como eixos; fronteira de Pareto não-côncava entre consistência e riqueza; escala melhorando geração sustentada sem melhorar coerência; restrição estrutural enriquecendo e encurtando. Confiabilidade: média — preprint recente; sustenta o mecanismo, não um número de mercado.
  1. Narrative Flattening (arXiv 2605.27878, 27/05/2026, rev. 07/09/2026). https://arxiv.org/abs/2605.27878 Li, Zhu, Wu, Bao e Evans. Sustenta: quatro checkpoints do OLMo 32B (Base, SFT, DPO, RLVR); três fontes pareadas (StoryStar, TMAS, The New Yorker); compressão progressiva de movimento temático, prevalência afetiva e diversidade linguística; maior perda contra ficção literária profissional; convergência entre domínios. Confiabilidade: média-alta — desenho experimental claro, mas uma única família de modelo aberto, o que limita a generalização.
  1. Elsewise (arXiv 2601.15295, 10/09/2026). https://arxiv.org/abs/2601.15295 Wang, Chung, Roemmele, Sun, Wang, Almeda, Halperin, Lu e Kreminski. Sustenta que o problema de ferramenta em 2026 é visualizar o espaço de possibilidades da narrativa ramificada, e não gerar texto. Confiabilidade: média — usei a formulação do problema, não resultados quantitativos, que não consegui extrair do PDF.
  1. The Conversation — o que as acusações de IA no Commonwealth Prize significam (21/05/2026). https://theconversation.com/what-do-the-commonwealth-writers-prize-ai-allegations-mean-for-prizes-and-short-stories-283470 Sustenta todo o caso Jamir Nazir: Pangram alegando 100%, a defesa de Razmi Farook sobre consentimento e propriedade artística e o "princípio de confiança", a consulta de Sigrid Rausing a um modelo, e o silêncio do autor diante do NYT e do Guardian. Confiabilidade: alta — veículo acadêmico com autoria identificada; e o próprio texto declara que a detecção é inconclusiva, em vez de afirmar culpa.
  1. Clarkesworld — Neil Clarke, "The Future of Dealing with AI Submissions" (ago/2025). https://clarkesworldmagazine.com/clarke_08_25/ Sustenta a migração do texto de robô para a submissão híbrida, a revisão humana como último recurso, e a frase "a tecnologia nunca deve ter a última palavra". Os números de fevereiro de 2023 (500 geradas contra 700 legítimas; spam antes não passava de 25/mês) vêm da cobertura da época referenciada pelo próprio editor. Confiabilidade: alta — é o editor descrevendo o próprio processo.
  1. Authors Guild — expansão da certificação "Human Authored" (02/03/2026). https://authorsguild.org/news/human-authored-certification-expands-to-all-authors/ Sustenta: beta para sócios em janeiro de 2025, público em 02/03/2026, US$ 10 por título para não sócios, gratuito para sócios, verificação de identidade por terceiro, limite de 10 títulos por ano, e o critério de uso permitido (de minimis; sumário, índice, pesquisa, brainstorming e esboço liberados). Confiabilidade: alta para as regras — é a fonte primária; baixa para "milhares de livros certificados", que é alegação da própria entidade sem número.
  1. EU AI Act — guia do Artigo 50. https://artificialintelligenceact.eu/transparency-rules-article-50/ Sustenta: aplicação desde 02/08/2026, prazo até 02/12/2026 para sistemas implantados, marcação legível por máquina, isenção para função assistiva de edição, e a isenção de obra evidentemente artística, criativa, satírica ou ficcional, que é o mecanismo central de e15.2. Confiabilidade: alta — é o compêndio de referência do texto legal, com o artigo citado; para uso jurídico, conferir o Jornal Oficial.
  1. Anime News Network — a nova lei de IA da Coreia e o webtoon (24/01/2026). https://www.animenewsnetwork.com/news/2026-01-24/south-korea-new-ai-law-raises-questions-for-webtoon-creators-platforms/.233383 Sustenta: obrigação de divulgar conteúdo gerado, marca d'água não visível e legível por máquina admitida para webtoon e animação, rótulo visível mais rigoroso para deepfake, e um ano de carência com orientação em vez de multa. Confiabilidade: média-alta — veículo especializado; o texto declara não saber os valores de multa nem se webtoon é setor de alto impacto.
  1. Korea Times — a indústria de webtoon e a IA (06/11/2025). https://www.koreatimes.co.kr/lifestyle/trends/20251106/webtoon-industry-seeks-ai-edge-amid-legal-ethical-challenges Sustenta a pesquisa da Korea Creative Content Agency com 800 quadrinistas: 18,3% já usaram IA generativa, 36,1% pretendem usar, 63,8% das empresas pretendem adotar, 41,3% apontam questão jurídica como maior peso, 31,3% temem perda de originalidade; e o boicote de assinatura contra a obra gerada da Naver Webtoon. Confiabilidade: alta para os números da pesquisa (agência pública); média para o relato do boicote, que é descrição jornalística sem número.
  1. itch.io — Generative AI Disclosure tagging (20/11/2024). https://itch.io/t/4309690/generative-ai-disclosure-tagging Sustenta: o campo e as quatro subcategorias (Graphics, Sound, Text & Dialog, Code), obrigatoriedade para quem vende assets e apenas encorajamento para jogos, tags automáticas "AI Generated" e "No AI", e a sanção de perda de indexação. Confiabilidade: alta — é o anúncio da plataforma.
  1. Game Developer — Valve ajusta e esclarece as regras de declaração de IA (16/01/2026). https://www.gamedeveloper.com/business/valve-tweaks-and-clarifies-ai-disclosure-rules-for-steam Sustenta a reescrita de 16/01/2026: ferramenta de fluxo de trabalho isenta; "IA para gerar conteúdo para o jogo" e "conteúdo de IA gerado durante o jogo" obrigatórios; aplicação a material de loja e marketing. Confiabilidade: alta — veículo de referência do setor, citando o texto da política.
  1. GDC — State of the Game Industry 2026. https://gdconf.com/article/gdc-2026-state-of-the-game-industry-reveals-impact-of-layoffs-generative-ai-and-more/ Sustenta: mais de 2.300 profissionais ouvidos; 52% dizendo que a IA generativa tem impacto negativo (30% em 2025, 18% em 2024); 7% positivo (13% em 2025); 30% dos estúdios usando ferramentas de IA contra 58% em publishers, suporte e marketing; e a quebra por disciplina — arte 64%, design e narrativa 63%, programação 59%. Confiabilidade: média-alta — amostra grande e série histórica, mas é autosseleção de respondentes da própria GDC.
  1. Câmara dos Deputados — dublagem pede proteção legal contra voz gerada por IA (29/08/2024). https://www.camara.leg.br/noticias/1092791-segmento-de-dublagem-pede-protecao-legal-contra-uso-de-voz-gerada-por-inteligencia-artificial/ Sustenta o pedido do setor na audiência: aprovação do PL 2338/23 (remuneração por direito autoral quando a obra alimenta IA) e do PL 1376/22 (dublagem e legendagem por empresas e profissionais sediados no Brasil), reconhecimento da dublagem como patrimônio imaterial, e os atores envolvidos (Movimento Dublagem Viva, Clube da Voz, Interartis). Atenção à data: é de 2024, não de 2026 — ver seção 8, item 5. Confiabilidade: alta — agência oficial da Câmara; não traz número sobre o tamanho do setor.
  1. Ren'Py — página do projeto. https://www.renpy.org/ Sustenta: versão 8.5.3 ("We Can Go to the Moon", 15/05/2026) e "mais de 8.000 novelas visuais, jogos e outras obras". E sustenta, por ausência, o sinal fraco SF6: nenhuma menção a IA. Confiabilidade: alta para versão e data; a contagem de obras é alegação do projeto.
  1. Phys.org — rótulos de divulgação de IA podem fazer mais mal que bem (09/03/2026). https://phys.org/news/2026-03-ai-disclosure-good.html Sustenta o estudo publicado no JCOM pela Universidade da Academia Chinesa de Ciências Sociais: 433 participantes recrutados pela Credamo entre março e maio de 2024, e o "efeito de cruzamento verdade-falsidade" — o rótulo de IA derruba a credibilidade da informação correta e eleva a da falsa. Confiabilidade: média — é divulgação científica de um estudo, e o objeto é credibilidade de informação, não fruição de ficção; usei como indício do mecanismo do rótulo, não como prova sobre obra narrativa.
  1. Diário de Pernambuco — Abragames leva 78 estúdios à gamescom 2026 (21/08/2026). https://www.diariodepernambuco.com.br/tecnologia/2026/08/11721910-abragames-leva-78-estudios-a-gamescom-2026-e-estreia-espaco-dedicado-a-jogos-indies-nacionais.html Sustenta a nota brasileira de e12.2: 78 estúdios e empresas, mais de US$ 138 milhões em negócios globais, 55% da receita dos estúdios nacionais vinda do mercado externo, 35 títulos no pavilhão indie. Confiabilidade: média — jornal de referência citando dados da Abragames, que é parte interessada.

12. Anexo — o levantamento bruto

12.1 Efeitos cortados na bateria da seção 7

Nada foi cortado em silêncio. Os dois removidos, na íntegra como estavam escritos:

# REMOVIDO de R1, era e1.2 — falha no teste da causa solta (§7.5)
- id: e1.2
  ordem: 2
  efeito: O funil de seleção de publisher passa a rejeitar projetos por serem apenas um prompt, criando um critério explícito de esforço humano no pitch
  sinal: fraco
  prazo: 2032
  confianca: baixa
# Motivo: publishers já rejeitam pitch sem esforço demonstrado, e continuariam rejeitando sem
# esta raiz. O efeito descreve uma prática existente com vocabulário novo.

# REMOVIDO de R3, era e14.1 — falha no teste da causa solta (§7.5)
- id: e14.1
  ordem: 2
  efeito: A perda estilística vira escolha explícita de produto e obra intraduzível vira nicho declarado
  sinal: fraco
  prazo: 2035
  confianca: baixa
# Motivo: já é verdade hoje, e por razões estéticas anteriores a qualquer tradução automática.
# Joyce, Guimarães Rosa e Rosa Montero não precisaram de LLM para serem intraduzíveis de propósito.

Efeitos que escrevi e descartei antes mesmo da bateria, por serem os genéricos que a skill proíbe — registro para que a próxima rodada não os reinvente:

12.2 O que o briefing não cobriu, assumido por mim

O bloco briefing: veio completo nos campos da entrevista (§0), então não houve rebaixamento geral de confiança. O que ele não cobriu e eu assumi, declarado aqui como manda a skill:

  1. Profundidade de derivação por ramo. Assumi 3 a 6 efeitos de 1ª ordem por raiz (saíram 4 a 5), 1 a 3 filhos e 1 a 2 netos — o volume que a skill recomenda.
  2. O que conta como "o que já é comum em produto de massa". O briefing dá a régua sem operá-la. Operei assim: se aparece em mais de 30% dos lançamentos comerciais e o uso não é contestado como novidade, é maduro. Foi por essa régua que a geração de imagem como asset saiu (≈60% das declarações da Steam) e a geração da história inteira ficou (menor fatia das declarações).
  3. Se "coautoria" inclui coautoria entre humanos mediada por máquina. Assumi que não: o mapa trata da coautoria humano-máquina. Escrita colaborativa entre pessoas com assistência de modelo ficou fora, e é um ramo inteiro que outra rodada pode abrir.
  4. Se literatura impressa entra. Assumi que sim, parcialmente — R4 é majoritariamente literária (Authors Guild, Jabuti, Commonwealth, Clarkesworld) porque é ali que o regime de declaração está mais avançado. Um mapa só de jogo teria R4 muito mais magra.
  5. O tratamento do vizinho tema 7 (NPCs e mundos vivos). Assumi a fronteira que o enunciado fixa: o personagem que age dentro do mundo é tema 7; aqui o objeto é a história como coisa gerada. Por isso e6.2 (arquitetura híbrida) aparece como efeito sobre o desenho da obra, e não como tese sobre agentes.
  6. Moeda e mercado de referência para preço. Usei o que a fonte trazia (R$ 32,99 na Steam brasileira, US$ 10 do Authors Guild) sem converter, para não introduzir número que não está em fonte nenhuma.

12.3 Candidatos a disrupção-raiz examinados e a decisão sobre cada um

CandidatoDecisãoMotivo, em uma linha
Engine de novela visual (Ren'Py, Monogatari)recusadomaioria há uma década; 8.000+ obras só em Ren'Py
Ferramenta de diálogo ramificado (Twine, Inform 7, YarnSpinner, Arrow, dialogic)recusadomadura; nada a romper
Gerador de mapa e worldbuilding (Fantasy-Map-Generator, chronicler)recusadomaduro, e é objeto do tema 14 (design procedural)
"O modelo escreve melhor"recusadomelhoria sustentadora: mesmo produto, mais barato
Geração de imagem e voz como assetrecusadocomum em produto de massa; ≈60% das declarações da Steam; é tema 12
Tradução automática neuralrecusadomadura desde ~2017; o que rompe é a sobreposição em execução (R3)
Copiloto de escritarecusadouso corrente; o mercado já vende o selo do contrário
Script-to-video (Sora 2, Veo 3.1, Pika, Luma)recusado como raiz deste temaé mídia, não narrativa: tema 12. Entra como pré-condição de R1
Personagem persistente com memória (Character.AI, Inworld)recusado como raiz deste temaé o personagem que age: tema 7. Entra em e10
Obra inteira a partir de intenção curtaR1rompe a unidade de produção e o orçamento como filtro editorial
Obra instanciada por leitorR2rompe a identidade numérica da obra
Tradução sobreposta em execuçãoR3rompe o controle da obra sobre a língua em que é lida
Autoria como declaração auditávelR4rompe a suposição de que autoria é constatável na obra

12.4 Fontes que não abriram, e o que eu teria citado delas

Registro porque a ausência delas explica ausências no texto — e porque a tentação de citá-las assim mesmo foi real.

FonteErroO que eu teria citado
Hilary Mason e Eleanor Todd, "The State of AI-Native Games" (Medium)403"liberdade conversacional não é liberdade narrativa"; custo de inferência por sessão; a resenha da Steam dizendo que só duas decisões afetam o desfecho
GDC — página da sessão "The State of AI-Native Games"403o resumo oficial da sessão e a lista de jogos analisados
Nimdzi 100 — página de mercado403tamanho do mercado de serviços linguísticos em 2026 e a frase sobre verticais de videogame caindo no ranking por causa da localização por IA
SAG-AFTRA — página do Acordo de Mídia Interativa 2025403 (duas URLs)o texto contratual das cláusulas de réplica digital; usei o conteúdo confirmado em busca, e mantive no texto só o que apareceu de forma consistente em mais de um resultado — o que ainda é uma fragilidade, declarada aqui
Regulamento do 68º Prêmio Jabuti (PDF da CBL)abriu, mas ilegívela cláusula literal sobre IA em "tarefas autorais"; usei a formulação como reportada, sem aspas de citação direta
ScienceDirect — Cognition, informação contextual de IA e julgamento estético403efeito quantificado da revelação de autoria de IA sobre apreciação estética; substituído pelo estudo do JCOM via phys.org, que mede credibilidade e não fruição — substituição imperfeita, declarada
ACM DL — "AI in Webtoon Creation" (CHI 2026)não tentado após o padrão de 403 do domíniopercepções de quadrinistas sobre IA; substituído pela pesquisa da KOCCA via Korea Times

12.5 Buscas que não deram em nada

12.6 Saída do verificador

Comando executado:

python3 /Volumes/Extra/cosmos/ufpe/Aulas/TendenciasMidiaInteracao/26_2/skill-professor/futurizacao-giordano/references/verificar.py /Volumes/Extra/cosmos/ufpe/Aulas/TendenciasMidiaInteracao/26_2/skill-professor/rodadas/giordano-h2041/08-narrativa-gerativa-e-coautoria/tendencia-narrativa-gerativa-e-coautoria.md --links

Saída, na íntegra:

frontmatter: 18/18 campos
títulos literais: 12/12
raízes: 4 (frontmatter diz 4)
efeitos ordem 1: 18 (frontmatter diz 18)
efeitos ordem 2: 37 (frontmatter diz 37)
efeitos ordem 3: 21 (frontmatter diz 21)
prazo > horizonte (2041) em ordens 1-2: 0 
prazo > horizonte em ordem 3 (permitido, mas declare): 2 [('e1.1.1', 2042), ('e12.1.1', 2043)]
confiança ordem 1: alta 9 · media 6 · baixa 3
confiança ordem 2: alta 1 · media 28 · baixa 8
confiança ordem 3: alta 0 · media 0 · baixa 21
links da seção 11: 24/24 respondem (frontmatter diz fontes: 24)
RESULTADO: ok

Leitura da saída, item a item.